segunda-feira, 24 de dezembro de 2012

Em defesa do Peba e da Ecologia - Dimas Macedo





1)  A Vida e a Ecologia
           O tatupeba (Euphractus sexcinctus (L.), também conhecido como peba, papa-defunto, tatupoiú, tatu-de-mão-amarela, tatu-cascudo, tatu-peludo e peludo, é um tatu encontrado do Suriname ao Norte da Argentina. Tal espécie possui coloração amarronzada, carapaça provida de pelos esparsos, com seis ou oito cintas de placas móveis e cabeça cônica e achatada. É um animal notívago, solitário e onívoro, alimentando-se de uma vasta gama de plantas e animais, inclusive carcaças, o que lhe confere a possibilidade de transmitir o botulismo, uma doença importante na bovinocultura. Ocupa campos, cerrados e bordas de florestas, onde escava túneis para se esconder. É notória, na região do cerrado, a ideia de que o tatupeba se alimenta dos cadáveres dos cemitérios.
2)  Etimologia do Peba
       "Tatupeba" e "peba" são originários do tupi tatu'pewa, "tatu chato" "Papa-defunto" é uma referência à crença popular de que a espécie se alimenta de cadáveres. "Tatu-peludo" e "peludo" são referências à pelagem densa da espécie. Sexcintus, traduzido do latim, significa "seis cintas": é uma referência à sua carapaça, que, geralmente, é dividida em seis cintas de placas móveis.
3)  Subespécies
  • Euphractus sexcinctus flavimanus Desmarest, 1804.
  • Euphractus sexcinctus setosus Wied, 1826.
  • Euphractus sexcinctus boliviae Thomas, 1907.
  • Euphractus sexcinctus tucumanus Thomas, 1907.
4)  Links e Referências
Holanda, Aurélio Buarque de. Novo Dicionário da Língua Portuguesa. Rio, Editora Nova Fronteira, 1986. 

sábado, 22 de dezembro de 2012

Centenários de Quatro Lavrenses em 2013 - Dimas Macedo



1)  Almir dos Santos Pinto

Almir dos Santos nasceu Pinto em Lavras da Mangabeira, aos 15 de fevereiro de 1913. Filho de Melquíades Pinto Nogueira, antigo prefeito municipal de Lavras, e de Isabel dos Santos Pinto.
Na terra natal, fez os estudos primários, quando frequentou as aulas da Professora Amélia Braga e o Grupo Escolar local. Vindo para Fortaleza, matriculou-se no Internado São Luiz, no mesmo fazendo o curso de admissão, em 1926. Em 1929, transferiu-se para o Liceu do Ceará, terminando naquele estabelecimento de ensino o curso ginasial em seus dois últimos anos.
Em 4 de fevereiro de 1931, seguiu para Recife, ali fazendo vestibular para a Faculdade de Medicina, a 5 de abril do mesmo ano, permanecendo na capital pernambucana até o término do primeiro ano, quando seguiu para Salvador, ali graduando-se a 5 de dezembro de 1936.
Depois de formado, estabeleceu clínica em Maranguape, onde chegou a 4 de janeiro de 1937. Por ato do Governador Menezes Pimentel, em 1940 foi nomeado médico do Instituto Carneiro de Mendonça, prestando relevantes serviços à causa da delinquência juvenil. Em 1942, após estágio no Serviço de Saúde do Exército, recebeu a patente de Segundo Tenente Médico da Reserva.
Em Maranguape, tornou-se clínico conceituado e, por ato do Interventor Andrade Furtado, foi nomeado prefeito municipal, cargo que ocupou de 19 de fevereiro de 1944 a 19 de novembro de 1945, quando foi demitido por resolução do Interventor Beni de Carvalho.
 Voltou ao cargo de prefeito de Maranguape a 5 de maio de 1946, por nomeação do Governador Pedro Firmeza, mantendo-se no mesmo até 3 de janeiro de 1947, quando requereu afastamento para candidatar-se a Deputado Estadual, sendo eleito com larga maioria de votos, aos 19 de janeiro de 1947.
 Nas oportunidades em que esteve à frente da Prefeitura de Maranguape, realizou administração operosa e progressista. Ainda naquele município, foi diretor da Maternidade Olinto Oliveira e do Instituto dos Pobres e, em Fortaleza, médico da Associação dos Merceeiros, da qual recebeu homenagem especial, com a aposição do seu retrato na Galeria de Honra da entidade, aos 31 de outubro de 1979.
  Poeta bissexto e jornalista filiado à Associação Cearense de Imprensa, em 10 de maio de 1947, por nomeação do Governador interino do Ceará, Joaquim Bastos Gonçalves, foi feito Secretário de Polícia e Segurança Pública, tendo exercido igualmente os cargos de Secretário de Saúde, Secretário do Interior e Justiça e Secretário de Educação e Cultura do mesmo Estado.
Filiado ao Partido Social Democrático (PSD), foi eleito Deputado à Assembleia Legislativa do Ceará pela primeira vez em 1947, com mandato até 1950, oportunidade em que foi integrante das comissões de Saúde Pública e Assistência Social e Segurança Pública. Reeleito em 1951, ocupou nessa legislatura a primeira secretaria da Assembleia.
 De 1955 a 1978 foi eleito, sucessivamente e de forma ininterrupta, deputado estadual, consagrando-se como o parlamentar de vida mais longa na história do legislativo cearense. Em 1947 ocupou a terceira secretaria da Assembleia e, em 1959, a presidência da mesma, voltando ao posto em 1965. Vitoriosa a Revolução de março de 1964, vinculou-se à Aliança Renovadora Nacional (ARENA), sendo feito de 1973 a 1974 mais uma vez presidente da Assembleia e, de 1971 a 1974, Presidente Regional da Arena.
Membro do Conselho Regional de Medicina, do qual foi presidente, em 1973 e 1974 foi escolhido pela crônica política o Melhor Deputado do Ano. Em 1978 foi feito Primeiro Suplente de Senador, sendo que, já em começos de 1979, foi empossado no cargo de Senador da República, tendo no Congresso Nacional atuação destacada.
No Senado integrou as comissões de Relações Exteriores e de Saúde e, como suplente, as comissões de Constituição e Justiça e de Assuntos Regionais. Na Assembleia Legislativa do Ceará foi Presidente da Comissão de Constituição e Justiça e de Educação, bem como da CPI do Contrabando no Estado do Ceará. Na condição de Presidente da Assembleia Legislativa, assumiu o Governo do Estado em dezessete oportunidades.
Membro da Academia Brasileira de Medicina Militar, Almir Pinto esteve presente ao Seminário realizado por essa academia, sob os auspícios da Faculdade de Medicina da Universidade de OSAKA – Japão. Como Deputado Estadual participou da Delegação Brasileira aos Congressos Mundiais de Municípios, realizados em Bangkok e Washington, tendo presidido a Delegação Brasileira que participou do Seminário de Demografia e Bioestatística, realizado em San Juan Del Puerto Rico.
Entre os seus livros publicados, enumeram-se: Como Sobrevivem os Municípios Brasileiros (1979), Discursos/79(1980), Discursos/80 (1981), Pronunciamentos do Ano de 1981 (1982) e O Parlamento em Versos (1984), este último com prefácio do Senador Luiz Viana Filho, que o qualificou de “trabalho original, possivelmente sem precedentes na história dos Parlamentos, e que representa singular depoimento para a posteridade”. Faleceu em Fortaleza, aos 19 de novembro de 1991.




2)  João Clímaco Bezerra

Nasceu João Clímaco Bezerra em Lavras da Mangabeira, aos 30 de março de 1913. Filho de Raimundo Nonato Bezerra e de Maria da Costa Bezerra. As  primeiras letras aprendeu-as na terra natal e as tomou no velho Grupo Escolar com as professoras Amélia Braga e Rosária Mota.
Em Lavras, trabalhou no comércio local, para depois transferir-se para Fortaleza, onde estudou nos Colégios São João e Liceu do Ceará, do qual saiu para matricular-se, por concurso vestibular, na Faculdade de Direito da Universidade Federal do Ceará, bacharelando-se em 1950.
Pela Escola de Comércio Padre Champagnat, diplomou-se contador, ali iniciando a sua carreira de professor. Exerceu também o magistério no Instituto de Educação Justiniano de Serpa, na Faculdade de Filosofia, na Faculdade de Ciências Econômicas e Administrativas da Universidade Federal do Ceará, e na Escola de Administração do Ceará.
Ocupou cargos importantes na vida pública do Ceará e do Brasil, tais os de diretor técnico de educação da Secretaria de Educação do Ceará, o de chefe de relações públicas do Banco do Nordeste e o de assessor técnico da Confederação Nacional da Indústria, no Rio de Janeiro, para onde se transferiu.
 Estreou em 1948 com o romance Não Há Estrelas no Céu, bastante elogiado pela crítica e com ele incorporando-se aos escritores tidos como criadores do romance cearense, deixando nesse livro marcas indeléveis da infância.
Em 1952, apareceu o seu segundo romance – Sol Posto que, assim como o primeiro, foi publicado pela Editora José Olympio, do Rio de Janeiro. Também de 1952 é a novela Longa é a Noite, cuja terceira edição é de 2007.
  É autor de dois livros de crônicas: O Homem e Seu Cachorro (1960) e O Semeador de Ausências (1967), e para a coleção nossos clássicos da Editora AGIR, João Clímaco Bezerra escreveu os ensaios sobre Juvenal Galeno e Humberto de Campos.
 De 1980 é o romance A Vinha dos Esquecidos. Mas um dos livros de maior relevo, a longa ficção – Os Órfãos de Deus –, ainda permanece inédito, desafiando a expectativa de seus inumeráveis leitores.
 Como jornalista, João Clímaco foi por longo tempo editorialista do jornal Unitário, em que manteve diariamente uma coluna de crônicas, praticando também a crítica literária e o ensaio com muito sucesso.
Romancista consagrado pela crítica nacional. Cronista, novelista, ensaísta, foi membro da Academia Cearense de Letras, onde ocupou a cadeira nº 9, que tem como patrono Fausto Barreto, tendo falecido no Rio de Janeiro, aos 4 de fevereiro de 2006.


3)  João Gonçalves de Souza
Filho de Joaquim Gonçalves de Souza e de Joana Duarte Passos, João Gonçalves de Souza nasceu no distrito de São José, município de Lavras da Mangabeira, aos 20 de agosto de 1913.
As primeiras, letras aprendeu-as na terra natal e prosseguiu os estudos no Ginásio do Crato. Quando ginasiano, mais por questão de sobrevivência do que de vontade, teve que abandonar os estudos por algum tempo e trabalhar como apontador de estrada de rodagem.
Concluindo a escolaridade média com sacrifício, rumou para Salvador e de lá para o Rio de Janeiro, a bordo de um navio, com uma passagem de segunda classe, concedia pelo então Governador Bahia, Juraci Magalhães.
 Em chegando ao Rio, a primeira oportunidade de emprego que lhe apareceu foi a de sacristão, que aceitou sem relutância. Progredindo assustadoramente, em 1935 matriculava-se na Escola Nacional de Agronomia, para sair Engenheiro-Agrônomo em 1939. Paralelamente, de 1935 a 1940, cursou a Faculdade Nacional de Direito da Universidade do Brasil, pela qual saiu Bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais.
  Posteriormente, fez-se Mestre em Sociologia Rural, pela Wisconsin University, localizada em Madison, nos Estados Unidos, de 1944 a 1946, com a defesa da tese – The Regional Aproach in Exploring the North Section on Brazil. Fez também estudos de doutoramento com vistas a PHD (Sociologia Comparada, Economia Agrícola e Problemas Demográficos) na American University, em Washington (D.C.), e na Maryland University, de 1957 a 1958.
  João Gonçalves de Sousa foi Assessor Técnico do Ministério da Agricultura em problemas de economia rural, de 1940 a 1953; e, como integrante do quadro de técnicos desse Ministério, fez o estudo preliminar dos municípios sob a influência de Cachoeira de Paulo Afonso, como base para a criação da Companhia Hidrelétrica do São Francisco (CHESF), publicando monografia sobre o assunto, em 1946.
  Secretário executivo, por cinco anos, da Comissão Nacional de Política Agrária, João Gonçalves de Sousa elaborou, no Brasil, os primeiros estudos com vistas aos problemas de terra e reforma agrária, na gestão do Ministro João Cleofas de Oliveira, de 1950 a 1954.
  Por concurso, fez-se Livre Docente de Economia e Sociologia Rural da Universidade Rural do Brasil (1957). Responsável pela criação do Serviço Social Rural, que funcionou entre 1955 e 1956, João Gonçalves de Sousa foi o primeiro presidente do Instituto Nacional de Imigração e Colonização (INIC), e primeiro diretor executivo da Associação Brasileira de Crédito e Assistência Rural (ABCAR), ambos com sede no Rio de Janeiro e filiais em todos os Estados do Brasil.
   Foi também dirigente de vários seminários promovidos pela Organização das Nações Unidas (ONU) no Brasil Latino-Americano de Bem-Estar Social, no Rio de Janeiro, e diretor do Seminário Latino-Americano sobre Problemas da Terra, realizado em Campinas-SP.
   Representante do Brasil, por vários anos, junto ao Conselho da FAO, em Roma, e Chefe da Delegação Brasileira em diversas conferências internacionais de problemas econômicos, sociais e rurais, dentro e fora do continente americano (FAO, OIT, etc.).
   Foi delegado permanente do Brasil junto ao Comitê Intergovernamental Para as Migrações Europeias; Diretor interino do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da União Pan-Americana, de setembro de 1960 a janeiro de 1961; diretor do Departamento de Cooperação Técnica da União Pan-Americana, de 1956 a 1964; subchefe da Delegação do Brasil na II Conferência Extraordinária Latino-Americana da Organização dos Estados Americanos (OEA), em Buenos Aires, em 1967.
  Em várias oportunidades, foi encarregado da Subsecretaria para Assuntos Econômicos e Sociais da Organização dos Estados Americanos, e assim também Subsecretário de Cooperação Técnica da Organização dos Estados Americanos, por nomeação de 30 de outubro de 1970, tendo sido Assessor do IV Período da Assembleia Geral da OEA, realizada em Atlanta, nos Estados Unidos, de 19 de abril a 1º de maio de 1974.
  Ocupou o cargo de Presidente da Associação Latino-Americana de Sociologia Rural; foi Superintendente da SUDENE, de agosto de 1964 a junho de 1966; Ministro do Interior, de junho de 1966 a março de 1967; e Subsecretário da Organização dos Estados Americanos.
  Devotado aos problemas que sempre afligiram o Nordeste, sobre o mesmo escreveu os seguintes livros: The Regional Aproach in Exploring the Northeas Astern Section of Brazil – tese de doutoramento (Estados Unidos, 1956), Migrações Nordestinas – um Capítulo das Migrações Internas do Brasil (Rio, 1957), Algumas Experiências Extracontinentais de Reforma Agrária (Rio, 1963) e Nordeste Brasileiro: Uma Experiência de Desenvolvimento Regional (Fortaleza, Banco do Nordeste, 1979), representando este último um dos mais sérios estudos já escritos sobre a realidade nordestina.
  Vítima de aneurisma, João Gonçalves de Sousa faleceu no Rio de Janeiro, aos 16 de janeiro de 1979, sendo sepultado no Cemitério São João Batista daquela cidade. Na época, ocupava o cargo de Membro do Conselho de Administração do Banco do Nordeste, como representante dos acionistas minoritários.



4)  Prisco Bezerra

Filho de José Alves Bezerra e Maria Augusto Bezerra, Prisco Bezerra nasceu em Lavras da Mangabeira, aos 27 de novembro de 1913, como descendente de duas das principais famílias daquele município.
Estudando as primeiras letras na terra natal, transferiu-se para Fortaleza, aqui concluindo os estudos secundários e matriculando-se na Escola de Agronomia do Ceará, por onde se graduou Engenheiro Agrônomo, em 1935, como integrante de uma turma de 14 doutorandos, da qual, além de seu nome, destacaram-se os de Torres Câmara e Natanael Cortez.
Depois de formado, integrou-se ao corpo docente da citada Escola de Agronomia, primeiramente como professor assistente do Departamento de Fitotécnia, por ato de 27 de maio de 1936, e depois como professor Catedrático da mesma disciplina, a partir de 19 de junho de 1953.
Na mesma instituição superior de ensino, foi chefe do Departamento de Botânica Agrícola, compreendendo as áreas de anatomia, fisiologia e sistemática, sendo ali professor de Fitopatologia e Microbiologia Agrícola, a partir de 1939, desempenhando, da mesma forma, as funções de professor Catedrático de Botânica Agrícola, do Departamento de Botânica.
 Exerceu, por igual, na Universidade Federal do Ceará, os cargos de Vice-Reitor de Planejamento e Finanças e Diretor da Escola de Agronomia, hoje Centro de Ciências Agrárias, este último, por mais de vinte anos, de março de 1946 a setembro de 1950 e de fevereiro de 1951 a agosto de 1967.
À Escola de Agronomia do Ceará deu notável desenvolvimento, emprestando crescimento, por igual, às ciências agrárias cearenses, quer nas lides do magistério superior, quer como cientista dos mais conceituados, sendo extensa, nessa área, a sua produção cultural e científica, espraiada em livros, opúsculos, teses acadêmicas e artigos publicados em revistas científicas, nacionais e internacionais.
  Na gestão da pesquisa científica e no trato das ciências agrárias, revelou-se um batalhador incansável. E em prol da melhoria das condições de ensino e pesquisa, deu o máximo do seu esforço, partilhando com os seus alunos a sua experiência e a sua dedicação à causa que abraçou.
  A partir de 1975, passou a ocupar o cargo de Professor Titular do Departamento de Biologia do Centro de Ciências da Saúde, continuando, entretanto, como diretor agregado da Escola de Agronomia, acumulando esses encargos com os de Professor Titular de Sistemática Vegetal e Diretor do Departamento de Virologia.
  Durante a sua carreira no magistério, realizou várias viagens ao exterior, notadamente ao México, Porto Rico e Estados Unidos, onde defendeu a maioria de suas teses acadêmicas. Como membro de várias associações e instituições científicas, nacionais e internacionais, o professor Prisco Bezerra faleceu em Fortaleza, aos 8 de janeiro de 1985.






sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Meu Padrinho João de Lemos - Barros Alves





 Já vai pros oitenta e sete, 
 Viaja por todo o mundo, 
 Em todo canto se mete,
 Salta, pula, canta e dança
 Se parecendo um pivete.
 
 João de Lemos pita o sete,
 Bebe uísque, cana e vinho,
 E igual a Dom Juan
 Só vive de agarradinho.
 Ziraldo ao lhe conhecer
 Inspirou-se pra fazer
 "O Menino Maluquinho".
 
 João de Lemos, meu padrinho,
 Pra farrear não tem hora,
 Não pode ver uma mulher
 Que já paquera e namora,
 E se ela der bobeira
 Ele cai na gafieira,
 Dá o traço e vai embora.
 
 Me liga fora de hora
 Chamando para o pagode,
 Se eu digo que estou cansado
 Meu padrinho logo explode,
 Passa carão, dá cavaco,
 Diz que eu sou um cabra fraco...
 Com esse João ninguém pode!


quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

JÁ FAZ TRÊS NOITES QUE PRO EXU RELAMPEIA - Cristina Couto



Já faz três noites 
                                                           Que pro norte relampeia 
                                                           A asa branca 
                                                           Ouvindo o ronco do trovão 
                                                           Já bateu asas 
                                                           E voltou pro meu sertão 
                                                           Ai, ai eu vou me embora 
                                                           Vou cuidar da prantação.


                   Hoje Luiz Gonzaga está de volta pro sertão, não mais pra cuidar de sua prantação. Desta vez, em plena seca, ele voltou para comemorar seu centenário, voltou o filho de Januário, o filho mais ilustre de Exu, não mais o homem, voltou a lenda, o mito. Aquele que levou e elevou o nome e a cultura do Nordeste ao mundo.

                           Em Exu não tem mais Asa Branca, ela bateu asas do Sertão, não tem mais o véi Jacó que defendia com unhas e dentes os oito baixos de Januário, inconscientemente, defendendo a cultura local, temendo a interferência de outras culturas no seu sertão.

                        Aqueles velhos e inocentes costumes se extinguiram com o tempo, com a internacionalização da cultura e do capital. As Samaricas Parteiras não existem mais, o velho ofício foi substituído por profissionais da área de saúde. Talvez em homenagem a tanto trabalho e a tantos filhos ilustres que essas senhoras ajudaram “vir ao mundo”, o Estado de Pernambuco tombou tal arte como bem imaterial dos pernambucanos.

                       Gonzagão agora refaz a sua Légua Tirana, não precisa mais criar asas pra voltar pro seu sertão e ver sua Ana. Ele volta em luz e em espirito, volta grande e em grande estilo. Realmente, criou asas, asas de anjos e de Vida Eterna.

                   FELIZ ANIVERSÁRIO LUIZ GONZAGA – O GIGANTE HOMEM DO SERTÃO

terça-feira, 11 de dezembro de 2012

CONSIDERAI MIRAR O SOL - Júnior Bonfim







               O carrossel da vida, o encarrilhamento das obrigações diárias, o acorrentamento à necessidade de cumprir prazos, o imperativo dos compromissos profissionais, a inafastabilidade da peleja permanente pela sobrevivência – constituem invariavelmente óbice à imprescindível abertura das asas da alma à liberdade do voo.
                  Por óbvio, isso nos impede de mirar seres, coisas, objetos e pessoas sem as peles artificiais que as revestem. O tsunami das convenções grupais é tão violento que faz submergir qualquer ilha de resistência ao roldão do lugar comum. Somos todos arrastados pelas caudalosas ondas que lavam o cérebro da coletividade. Pensamos conforme nos orienta a cartilha do grupo ao qual estamos filiados. Agimos segundo seu fascículo conceitual. Rezamos em sintonia com aquele catecismo imposto pelo núcleo religioso cujo fio de fé professamos.
               Nesses tempos açoitados pelos efeitos de campanha eleitoral aflora a convicção de que a política é uma das arenas em que mais veementemente explode esse ímpeto gladiador alimentado pela passionalidade. Tornamo-nos instrumentos desse combustível fóssil extraído do poço tubular raso dos interesses.
                 Deixamos de observar valores simplesmente porque quem os exibe não está na arquibancada do nosso time. Olvidamos de ressaltar virtudes em razão dos protagonistas utilizarem carteiras de filiação diferenciadas da nossa. Descuramos reconhecer méritos em razão da origem ideológica de quem os ostenta.
                 Ninguém imagina quão grato fico quando recebo um telefonema cobrando a escritura de uma Crônica. É que essa doce e solitária faina laboral no roçado germinal das letras me obriga a pensar, silenciar, meditar e sopesar. Impulsiona-me a deixar a caverna do cotidiano embaçador e perscrutar o vaga-lume do sonho. Força-me a mirar de frente o sol!
E, mirando a clareza solar, sentir o aroma inebriante do arco-íris da liberdade! Mergulhar entre os balseiros da essencialidade!
                O fato é que, desse espaço introspectivo, às vezes fico impressionado com a fúria descomunal, a acidez verbal, o hálito de fogo que alguns costumam exalar no movimento de um prélio urnístico. Por que tanta dificuldade em controlar o tigre interior?
             Nessa esteira, vez por outra, quando o nosso terreiro é iluminado por um relâmpago de lucidez, nos indagamos: temos mesmo que nos deixar levar pela correnteza do mundo? É inevitável sermos alcançado por esse redemoinho?
                 Consideremos que a resposta seja NÃO!
                Consideremos a possibilidade de retirarmos a blusa. Caminharmos, cabelo ao vento, embalados pela sinfonia da natureza, sem chapéu, sem óculos, sem metal e sem enfeites. Contemplarmos a gratuidade mágica de pisar na terra nua, molhar os pés no primeiro pingo d’água encontrado.
             Consideremos a alternativa de nos abstermos de pronunciar palavras vãs. Fazermos uma pausa na batalha. Contermos o espírito de contenda e apenas esparramarmos o átomo da admiração para festejar a querida presença da generosidade no nosso entorno.
             Consideremos a abertura de uma concessão à benevolência. Consideremos compartilhar uma refeição temperada com os ingredientes da tolerância.
               Consideremos, por fim, um gesto de afeto ao despojamento total, a busca de uma maior intimidade com o desapego. Consideremos uma inflexão rumo à sensibilidade, o ato heróico de admitir a ternura em nosso dia a dia.
            Consideremos mirar o Sol

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

LAVRAS: CIDADE MORTA - Cristina Couto




                   O que aconteceu contigo, minha pequena cidade, postada às margens do Salgado? Porque tanta tristeza? O que fizeram a ti, ó princesa formosa, mulher banhada com as águas desse Rio que não apenas rega as tuas terras como lava a alma dos teus filhos.
                  Antes tu eras alegre, formosa e viçosa, com teus casarões antigos, tuas casas que, por mais simples que fossem, tinham no alto das janelas a marca registrada dos seus moradores. Agora resta pouco do teu passado glorioso.
                    Não sei com que propósito querem apagar tua história registrada nas paredes, no chão e na paisagem urbana; e teus primeiros sinais de vida.
                 Lembro saudosa das tuas calçadas lotadas de cadeiras na boca da noite, esperando a chega do vento do Aracati; lembro-me das tuas ruas cheias de crianças a correr e a gritar ao vento como se tu fosses surda; lembro-me dos banhos matinais na barragem e dos piqueniques aos domingos no Boqueirão, na Volta e no Gueguéu.
              Onde foram parar as tuas lendas e as tradições seculares? Nada disso acontece mais, e não te reconheço. O que aconteceu a nossa cidade que vivia em eterno movimento? Porque se entristeceu a Velha Princesa do Salgado?
                E porque ninguém faz nada para te tirar dessa agonia, dessa angústia e dessa melancolia que te invade. Cadê tuas crianças nas ruas? E os velhos e divertidos circos que outrora alegravam tuas noites? As quermesses e leilões de São Vicente Ferrer realizados pelo nosso saudoso Padre Alzir?
                  Pobre de ti, torrão querido, que não resistisses ao tempo, ao furor dos teus destruidores, às camadas negras de asfalto com que tentam silenciar a tua liberdade.  Agora que  te cobriram de luto para mostrar a indiferença que nutriam por ti, sei que estás sufocada tentando existir.
                       E tu que eras conhecida pelo nome de Princesa do Salgado, hoje tu és a Cidade Morta de todas as paixões, de todos os fervores, e de todos os sentimentos dos teus filhos que se fizeram poetas para hoje chorar a tua passível destruição.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

O Ceará Quilombola Que Ninguém Quer Ver - Cristina Couto





                                                                            
          No ano de 2006, quando tive a oportunidade de trabalhar na Vice Prefeitura de Fortaleza, me deparei com um mundo completamente desconhecido: as comunidades negras do Ceará. Uma realidade esquecida pela sociedade, pelas entidades que a representam e por nossos governantes.
        É verdade que no principio do governo do PT, em 2003, uma pequena luz se acendeu no fim do túnel, clareou um raio de esperança no coração dessa raça que tanto contribuiu e contribui para a economia e cultura brasileira, mas não passou de um facho de luz, de relâmpago que vez por outra surge e rapidamente desaparece no horizonte.
       A luta do movimento negro tem sido útil, mas não suficiente para o combate à discriminação racial e a injustiça social da qual seu povo é submetido.
                      O sentimento de injustiça e desconfiança é muito forte dentro de um grupo que historicamente amargou tanto sofrimento através da violência, e poucos são os seus representantes no cenário político nacional.
                      Refiro-me a alguém que possa dar voz e vez àqueles que até hoje continuam calados frente a tanta injustiça e desigualdade social, resquício da “Herança Maldita” que se arrasta por séculos.
               Elaborei, na época, o Projeto Ceará Quilombola, fornecendo subsídios para a construção de caminhos no avanço da luta pelos direitos do povo afrodescendente, com o objetivo de devolver a essa raça a estrutura que lhes foi negada.
              Pesquisando e registando as cinquenta e nove Comunidades em vinte e sete municípios cearenses, a maioria sem o menor conhecimento da sua representatividade e vivendo da agricultura, pude constatar as suas péssimas condições.
               A visita as Comunidades Quilombolas me mostrou que é possível superar desafios e sonhar com vários caminhos, trilhando sem desistir diante das barreiras. Isso me mostrou também o descredito da sua gente, já cansada de tanta exploração, de tantos trabalhos, seminários, congressos que nada resolvem.
  As Comunidades Quilombolas querem e merecem mais, querem descobrir o que restou dos costumes e hábitos antigos, a quem pertence o legado do saber no convívio com a natureza, e quantos são na realidade os seus integrantes, e as suas comunidades espalhadas pelo Ceará.
  O conhecimento da história dos afrodescentes, no Brasil, sugere a formação de uma consciência crítica sobre os problemas e possíveis soluções para a raça negra, com objetivo de devolver a esse povo a alta estima e a sua importância no cenário político, social e cultural do Brasil.
 Os governos precisam elaborar ações conjuntas que orientem, informem e ofereçam facilidades para o processo de desenvolvimento do Movimento e das Comunidades Quilombolas.
   Vamos deixar o blá-blá de lado e partir para o concreto, com uma proposta de trabalho que sirva de elo entre os órgãos competentes, o movimento negro e as comunidades quilombolas, buscando os benefícios sociais, resgatando a cidadania e devolvendo ao povo a identidade perdida.
 Esse resgate histórico será importante para todos os Quilombolas e suas comunidades percebam e conheçam a sua realidade e a sua identidade, e possam se orgulhar da sua negritude.
      O maior patrimônio de um povo é a sua história de luta e de resistência; é a história do seu passado e sofrimento e de conquistas que valem o seu sentimento de libertação.  


segunda-feira, 12 de novembro de 2012

PADRE CÍCERO É SANTO, SIM SENHOR! Barros Alves*




        Há algum tempo entrevistei Dom Fernando Panico, bispo da diocese do Crato, sobre o processo de reabilitação do Padre Cícero Romão Batista. Indaguei-lhe se conhecia algum santo que não passara pelas formalidades da canonização. Resposta lacônica: “Desconheço”. Não acredito, digo eu. Um bispo tem obrigação de conhecer a história da Igreja. Por agora, quando se tenta remediar uma injustiça inominável cometida contra o Padre Cícero, pela própria Igreja (lembrai-vos do precedente de Santa Joana d’Arc!), e se dá o primeiro passo para a longa caminhada que leva à glória dos altares, urge lembrar que vários nomes hoje inscritos no hagiológio católico-romano não necessitaram do processo canonizatório para merecer a veneração do povo.
        Pra começo de conversa, apóstolos e mártires, os primeiros santos, não foram submetidos à burocracia vaticana. São Jorge é perfeito exemplo de santo não canonizado, mas cultuado pelas populações do Brasil, Portugal, Espanha, Lituânia, Inglaterra, sendo padroeiro desta nação conforme Bula do Papa Bento XIV; e também padroeiro da cidade de Gênova, Itália. São Ludgero, fundador da cidade de Münster, na Alemanha, morreu a 29 de março de 809 “e logo depois foi venerado como santo”. Ao morrer Santa Catarina da Suécia (séc. XIV), “uma multidão imensa a proclamou santa antes mesmo das autoridades eclesiásticas...”Santa Matilde, nasceu em 895 e casou aos 14 anos com Henrique, duque da Saxônia, por força de negócios de Estado. Depois de brilhar pela inteligência e bondade na Corte, abandonou tudo e recolheu-se a um convento. Foi uma “mulher de admirável piedade, exemplo e ideal de rainha cristã”, e sem necessidade do veredito papal, “desde os escritos da época ela vem sendo chamada de santa”.
        São Venceslau, príncipe nascido na Boêmia em 907, adotou o ideal cristão em tenra idade. A inveja invadiu o coração do próprio irmão, Boleslau, que assassinou o jovem rei para assumir o trono. Antes Venceslau teve oportunidade de matar o irmão, mas não o fez, “porque a mão de um servo de Deus não deve manchar-se com um fratricídio”. Ao morrer surgiu uma imensa devoção popular a Venceslau, “graças aos prodígios que se operavam em seu túmulo de mártir, logo venerado como santo, o primeiro entre os povos eslavos”.  De igual modo, Santa Gertrudes, morta em 17 de novembro de 1301, “embora nunca tenha sido oficialmente canonizada, desde 1738 sua festa litúrgica é celebrada em toda a Igreja”. Ela é a padroeira das índias Ocidentais.
Ora, é certo que para a hierarquia da Igreja faz-se necessário o processo de canonização, precedido do de beatificação. Formalidade que o povo dispensa. Na prática Meu Padim Ciço já está em todos os lares dos sertões nordestinos, nos oratórios, nos altares, nas lapelas, nos rosários.
Melhor ainda, no imaginário místico do povo ele está ao lado do próprio Cristo, como se fosse uma das três pessoas da Santíssima Trindade, como cantou em sua santa ingenuidade o poeta popular.
Heresia? Que o digam os doutores da Igreja, o que não faz nenhuma diferença para o homem sofrido das caatingas, o qual não dá a menor atenção para filigranas teológicas. O que interessa a ele são os milagres que Meu Padim tem feito no cotidiano de sua existência: é a bicheira do animal que Meu Padim curou; é o parto da mulher que não fez pré-natal por omissão do governo, mas na hora da natividade dá tudo certo com a bênção de Meu Padim; é a doença do filho que se cura com a bênção dele; é o pão frugal de cada dia na  mesa rústica, que não falta porque Meu Padim ajuda; é a chuva que vem depois de longa estiagem, porque se São José não ouve, Meu Padim Ciço tem as “oiça” bem atentas, posto que mais do que ninguém ele vivenciou as angústias e tormentas do homem do sertão.
Por final, vale dizer que os santos prescindem de devoção e mais ainda da burocracia vaticana, porque são naturalmente santos, quer se queira, quer se não queira. O povo faz seus santos, até porque, como dizia com certa ironia o teólogo e filósofo católico Romano Guardini, “a Igreja é a cruz na qual Cristo foi crucificado, e como não se pode separar o Cristo da sua cruz, a gente tem de viver num estado de permanente insatisfação com a Igreja”.

* Da Academia Cearense de Hagiologia