sábado, 27 de outubro de 2012

Memória de Frei Reginaldo - Dimas Macedo






            Filho de José Alves de Araújo e de Alzira Crispim de Araújo, João Crispim de Araújo nasceu no sítio Cantinho, distrito de Mangabeira, na parte dessa localidade que extrema com a sede municipal de Lavras da Mangabeira, a 1º de fevereiro de 1925.
            Trata-se de Frade da Ordem dos Franciscanos Menores (OFM), conhecido na vida religiosa pelo nome de Reginaldo Araújo, cuja infância transcorreu entre o sítio Campos, no município do Icó, e o sítio Cigano, pertencente ao território de Baixio, tendo os seus irmãos se espraiado também pelo distrito de Amaniutuba.
            Chamado de Josi por seus familiares, desde muito cedo, sentiu a chama do amor e da fraternidade nos recessos do seu coração, e percebendo o sopro de Deus em sua caminhada, se deixou levar pelos ruídos da voz interior, consagrando-se à liberdade da obediência e aos exemplos da vida de Jesus.
             Aos vinte e três de idade, atendendo aos apelos da sua vocação, ingressou no Convento de Santo Antônio, na cidade de Canindé, para onde sempre regressou, pois ali se sentia mais à vontade em face da religiosidade popular.
            Serviu nas províncias dos Capuchinhos em Campina Grande (Paraíba), e em São Cristóvão (Estado de Sergipe), onde se destacou como Ecônomo e Diretor Espiritual. Esteve durante algum tempo em Salvador, adido ao Convento de São Francisco, localizado na comunidade de Brotas, hoje, Casa de Repouso São Francisco.
             Durante mais de quinze anos, serviu no Convento de Santo Antônio, no Recife, onde trabalhou no Comissariado da Terra Santa, condição que possibilitou a sua passagem por diversos Conventos Franciscanos a serviço dessa missão.
              Frei Reginaldo Araújo residiu também em Fortaleza, no Convento Nossa Senhora das Dores, tendo sido acolhido, a partir da década de 1960, na Província Franciscana de Canindé, comunidade onde viveu a maior parte dos seus sessenta anos de consagração.
             Naquela localidade, destacou-se pelos seus relevantes serviços prestados à causa social, contando-se entre eles a instalação do Hospital São Francisco, casa de repouso na qual veio a falecer, aos 19 de dezembro de 2011.
            No seio da comunidade franciscana, era tratado carinhosamente pelo nome Régis, tinha como lema de vida: “colhemos aquilo que plantamos”, e costumava afirmar que veio ao mundo para viver os Evangelhos de Jesus.
            Conhecido pela sua humildade e desapego, viveu até o último momento os votos de obediência, castidade e pobreza, consagrando-se, durante toda a vida, ao ideário de Servo do Senhor, sempre em defesa dos necessitados, ajudando-os conforme o mandamento cristão: “dá, de tal forma, que a tua mão direita não veja o que a mão esquerda entrega ao teu irmão”.
            Franciscano de grandes virtudes, modelo de honradez e dignidade, Frei Reginaldo Araújo era detentor de um espírito alegre e comunicativo, e costumava dizer para todos que “tudo estava tinindo”, e que a fraternidade e o amor estavam no centro da ressurreição e no caminho de volta para o pai.
            Um dos seus irmãos, de nome Josemar, destacou-se, em Lavras da Mangabeira, pela vocação da causa que abraçou – a política institucional, tendo sido Vereador e Vice-Prefeito daquele Município.
           Ao lado do Frei Jeremias Ciriaco, nascido no distrito de Quitaiús, e também pertencente à Ordem dos Franciscanos Menores (OFM), Frei Reginaldo Araújo forma a dupla de religiosos, nascidos em Lavras da Mangabeira, que mais alto se elevaram diante vida consagrada à causa dos irmãos.
                                      



sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Patrimônio, Memória, Identidade-Cristina Couto


                             
                Preservar, tombar e reconstruir a memória do patrimônio arquitetônico de Lavras da Mangabeira são ações conexas à vontade de construção de uma identidade municipal, estadual e nacional que surgiu entre os intelectuais e a cidadania lavrenses, no ano 2000, embora com focos e resultados distintos.
              A preservação visava não apenas a conhecer e identificar o nosso patrimônio, mas também a implementar ações com vistas a impedir que esse patrimônio desaparecesse ou fosse descaracterizado.
             Preservar significava não apenas o ato de conhecer, mas a intenção de pôr em ação medidas concretas, visando a manter a integridade da nossa memória coletiva, de maneira a conservar e perenizar os testemunhos do passado.
             O impulso de preservação não nasceu apenas porque as obras eram antigas e urgia conservá-las para que não se perdessem, mas igualmente por seu valor e seu lugar relativo no contexto de uma perspectiva mais ampla: a da reinvenção da identidade de um povo, servindo de apoio e suporte para confirmar e informar as bases de seus mitos.
              Com essa expectativa, as obras não seriam preservadas apenas por si mesmas, mas também por serem signos de outras coisas; não basta que essas obras falem do passado, mas possam testemunhar a favor de uma construção conceitual do presente, fazendo sentido dentro de um discurso essencialmente contemporâneo.
             Por isso, algumas vezes convêm reverter seu estado ruinoso, recuperando ou revivendo aquele sempre glorioso passado – mesmo que para isso se faça necessário inventá-lo sempre pensando na sua projeção para o futuro.
              Mais do que um ato de conservação passiva, a preservação nasce atrelada a uma atitude de projeto, de vontade de construir um futuro que se deseja. E como em qualquer projeto, sua concretização não envolverá apenas decisões objetivas ou técnicas, mas estará sempre e inevitavelmente permeada por decisões subjetivas.
               Por último, mas não menos importante, para que a preservação se concretize e seja permanente, é preciso que aos testemunhos do passado se atribua algum valor de uso no presente, até para que o esforço de conservação não se perca, assegurando à obra preservada os meios adequados para sua gestão e permanência.
                Preservar o patrimônio é contar a nossa história, é criar uma cultura própria do nosso povo, construindo uma identidade local que não só ajudará a construir a história de Lavras da Mangabeira, como ajudará na construção da história do Ceará e do Brasil.

sábado, 13 de outubro de 2012

QUEM PUXA AOS SEUS NÃO DEGENERA - Cristina Couto




Mais de um século já passou e a figura mítica de Dona Fideralina Augusto, de Lavras da Mangabeira, cada vez mais se perpetua na política cearense. Não é à toa que uma boa leva de seus descendentes, não só se candidataram como tiveram êxito nas eleições 2012.
Na sua terra natal, Lavras da Mangabeira, a matriarca cearense contou, determinou e decidiu o destino político dos seus filhos, genros e netos durante décadas, e ao que parece, seu vulto e seu sangue ainda estão muito presente entre os seus.
Eles não mais se concentram no feudo materno, a velha Princesa do Salgado, mas se espraiam por todo o Ceará. Este ano, Norte, Sul, Cariri e Litoral cearense receberam descentes de Fidelina para governar.  
A começar por Lavras da Mangabeira, berço da matriarca, onde foi eleito seu trineto, Gustavo Augusto Lima Bisneto, o qual, como o nome já diz, é descendente direto do seu filho predileto, o bem sucedido Coronel Gustavo Augusto Lima, chefe político de grande prestígio, alto comerciante e agricultor abastado, Deputado Estadual, Vice-Governador do Estado e um dos mais prestigiosos políticos do Ceará. E o filho do prefeito eleito, Marcelo Rodrigues Augusto, assumirá também, o cargo vice-prefeito na cidade de Pacatuba.
Na cidade litorânea de São Gonçalo do Amarante, Cláudio Pinho, é o novo prefeito eleito para o quadriênio 2012/2016. Neto do Senador Almir Pinto e trineto de Fideralina Augusto, herdou do seu avô e da sua trisavó a liderança política, fortalecida, no caso, pelo carisma político do seu pai, o poeta, ex-Deputado Estadual e ex-Prefeito de Fortaleza, Barros Pinho.
Ainda no litoral cearense, na cidade praiana de Paraipaba, Rodolfo Pinto Paiva, ocupará o cargo de vice-prefeito, a partir de 1º de Janeiro de 2013. Filho de Melquíades Pinto Paiva e Arair Pinto Paiva, leva no seu sangue, tanto do lado materno, quanto do paterno, o legado político da família Augusto Lima.
Como se não bastasse, na capital cearense, dois dos descentes de Fidera concorreram à prefeitura de Fortaleza, Heitor Férrer e Roberto Cláudio Bezerra. O primeiro é trineto da matriarca, pelo lado materno, e trineto, também, de uma de suas irmãs (Minervina Augusto Brasil), pelo lado paterno.
Já Roberto Cláudio é trineto de Fideralina, sendo bisneto do seu filho, o célebre Honório Correia Lima, importante líder político em Lavras da Mangabeira e em todo o Ceará, especialmente como Deputado Estadual, tendo sido em sua terra Membro da Guarda Nacional, Promotor Público, Juiz de Direito e chefe da Intendência Municipal.
Na cúpula da política estadual, não podemos esquecer o nome de Almircy Pinto, Presidente Regional do Partido Social Democrata (PSD) e Chefe Adjunto do Gabinete do Governador Cid Gomes.
 Isso prova que a herança política da Família Augusto, de Lavras da Mangabeira, vem no sangue e do berço, trazendo no DNA a vontade, a liderança e o jeito de saber fazer política.


quinta-feira, 11 de outubro de 2012

TRÊS DIMENSÕES DO POLIMORFO DIMAS MACEDO - Barros Alves




Dimas Macedoavis rara polifônica no cenário literário brasileiro. Seu pontificado  exsurge em três dimensões da criação e do conhecimento. Rebento nascido na ribeira do Salgado, pia sagrada em meio a natureza adusta dos vales secos dos sertões de Lavras da Mangabeira, Dimas foi batizado nas águas claras do Boqueirão, emergindo daí como poeta benzido e sacramentado sob as graças de São Vicente Férrer, aquele que fazia parar as coisas com um simples olhar no intuito de alargar o sonho e a imaginação dos transeuntes assombrados com os desígnios dos céus; adulto, a cantar medos e angústias de par com algumas alegrias, em promessa de solidariedade com o seu povo, o poeta se fez crítico e empunhando o anzol próprio dos pescadores de palavras, fez do verso verbo para fisgar o imaginado e contar sobre tudo o que encanta, e destrinchar os caminhos e descaminhos da literatura brasileira, especialmente da cearense; não satisfeito com os mergulhos nos rios da poesia e da crítica literária, ambos caudalosos, Dimas vai desaguar no oceano das perquirições jurídicas, Quixote de fazeres acadêmicos, no afã de desvendar as teias de injustiça que movem o mundo. 

Bem sabe ele que ao contrário da limpidez das águas que correm em sua sempre querida Lavras da Mangabeira, urbe grandiosa para o seu olhar eternamente enamorado, o mar da vida de quem arrosta os cenários de injustiça que presidem os destinos e desmantelos do mundo, é mar sempre revolto. É como diz o poeta Álvaro Martins: “O mar tem fundos arcanos/ abismos desconhecidos/ profundos como os gemidos/ dos desesperos humanos”. Mas, pelo até aqui visto, não há arcanos, nem abismos, nem gemidos, nem desesperos que impeçam Dimas Macedo de seguir desbravando céus e terras e mares, ainda que nunca dantes percorridos ou  navegados, para lembrar o cantar camoniano.

O poeta

Dimas Macedo, o poeta, é refinado esteta cujo trabalho criativo resulta do idílio inato pelos sons e ritmos que vêm da alma, aquela transcendente inspiração arrimada no cotidiano das coisas, que milagrosa e inexplicavelmente penetra na forma do verso e o eleva à divinização da Arte, a um tempo mais alta e mais profunda. Ao tecer os ritmos de uma canção que se faz presente e inalcançável como os sentidos do êxtase, a poesia de Dimas Macedo flui grávida de telurismo e transcendência, de vivência e fluidez, é palpável e diáfana, feita de insondável imanência que se perpetua na retina dos olhos e nos olhos da alma em átimos de segundos.

Uma arte que não emociona é simbologia sem afeto. Tal é impossível na poesia de Dimas Macedo, porque ela é enigma, desejo, metáfora manifesta, expressão reflexiva, o elegíaco e o telúrico, pulsações do ser que vive as saudades imensas dos tempos vividos na Lavras da Mangabeira, lugar idílico onde ainda hoje o poeta, na mais doce das ilusões, pratica o seu eterno retorno. A ontologia poética desse operário de “mãos calejadas de versos” é feita de recordações e assenta-se num humanismo místico que marca profundamente a essência das coisas visíveis e palpáveis, transmudando-as em elementos que se incorporam às impressões abstratas e às indagações metafísicas.

O crítico

Dimas é um investigador, um garimpador, arqueólogo de ideias e formas. Analisa, esmiuça, desarticula, disseca os elementos de uma obra literária sem escoimá-la do seu espírito, para que, é certo, não venha a padecer de morte injusta nas mãos de lúcido crítico. Quem conhece a escritura crítica de Dimas Macedo sabe que ao fazer a vivissecção de uma obra literária, ele tem em mente vasculhar todo o complexo arsenal linguístico e comunicacional do autor sob seu olhar; as vivências, emoções e todo o cenário intelectual de onde resultou o texto submetido ao crivo da crítica, sem olvidar, é claro, os conteúdos temáticos, as feições estéticas, tanto os formalismos como as realidades profundas da obra literária. 

Em razão dessa capacidade opinativa, dos imensos conhecimentos da técnica literária de que é posuidor, do feeling  que lhe permite sondar a alma do texto, é que Dimas Macedo tornou-se um dos mais respeitáveis nomes da crítica literária no Brasil. Aliás, um dos poucos nomes que ainda atuam com entusiasmo nessa tão difícil quanto ingrata área do saber acadêmico. Na condição de mestre da crítica, igualmente Aristóteles em sua Poética, Dimas não deseja ensinar aos literatos como proceder em sua profissão, mas como o público compreender melhor o ofício de escrever, sem esquecer, como afirmam os brâmanes, que a escrita é o instrumento daqueles que querem conservar o privilégio do saber, mas também daqueles cujo espírito se desliga das dimensões temporais.

O jurista

Homem de rigorosa formação humanista, não foi difícil ao poeta Dimas Macedo fazer da Ciência do Direito um dos pilares de sua trajetória profissional. Sem apetência para as lides advocatícias, assomou em seu  rico e vasto currículo o expert nos temas constitucionais, alteando-se nessa seara “como  propedeuta dos mais ímpares do Direito Constitucional, disciplina que tem lecionado com desenvoltura na graduação e na pós-gradução”, consoante testemunha o professor Otávio Luiz Rodrigues Júnior, para quem DimasMacedo “é, sem favor, um nome que honra a melhor tradição jurídica da Faculdade de Direito do Ceará”. Com efeito, não é demais dizer que o poeta se fez jurista dos mais brilhantes, porque  mestre que une talento e dedicação à pesquisa e ao estudo, para oferecer a alunos e leitores as libações derramadas de sua sabedoria e de seu largo coração de humanista insuperável no exercício da cidadania e da análise  percuciente e da crítica serena.

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Venda Grande D’Aurora - Dimas Macedo



         Nenhuma das globalizações levadas a efeito pelo historicismo conseguiu eliminar da vida social aquilo que lhe é intrínseco: a afirmação das sociedades regionais e o desenvolvimento das instituições municipais. A globalização corresponde a um modelo de organização material, mas é incapaz de deter o curso da vida e a expansão criativa daqueles que se associam em nome de uma nova conquista social.
       Na região centro sul do Ceará, entre meados do século dezoito e final do século dezenove, firmou-se uma de nossas melhores civilizações, cuja capital localizou-se na velha Princesa do Salgado, a malsinada terra dos Augustos e do oráculo de São Vicente Ferrer.
Ao seu redor, várias comunidades foram surgindo e se afirmando a partir de capelas e oratórios, construídos por núcleos civilizatórios de caráter parental, com o fim de preservar a religião católica romana e expandir o poder político do Império.
        A Povoação da Venda, hoje município de Aurora, é um desses núcleos civilizatórios a que me referido. Liga-se à cidade de Lavras da Mangabeira pelo duto cavado pelo Rio Salgado e é recortada por vales e baixos que fariam a glória
de qualquer comuna cearense.
        Surgiu do oratório ali levantado pelo Padre Antônio Leite de Oliveira, que em torno de si, a um só tempo, reunia as condições de pastor, proprietário, criador e reprodutor da gênese humana que se foi expandindo para toda a região do Cariri.
        Vários acontecimentos históricos fizeram de Aurora uma comuna bastante conhecida em todo o Ceará. Cito o rumoroso caso das Minas do Coxá e as agitações que cominaram com a Questão do Oito, especialmente porque esses episódios foram escritos com sangue e com o tecido de diversos conflitos que se tornaram traços da história de toda a região.
     Aurora também se destaca por ser Pátria de Aldemir Martins e Hermenegildo de Sá Cavalcante e por ser a Terra Natal de Paulo Quezado e Lúcio Brasileiro, e por estar vinculada à história de Marica Macedo do Tipy, a brava cearense que enfrentou a polícia de Nogueira Accioly e se fez respeitada para além da sua região.
      Os historiadores do Sul do Ceará sempre se referiram a Aurora com entusiasmo, alguns condenando o seu banditismo, outros louvando a sua tradição ou exaltando a sua história gravada com fogo e heroísmo, outros ainda destacando a sua vocação econômica e social; mas nenhum deles pensou em Aurora como personagem principal ou como boca de cena de uma grande narrativa.
      O território de Aurora, enquanto objeto de pesquisa, agora está minado, e já não tem como ser diferente, pois João Tavares Félix Júnior assumiu a condição de arauto da história de Aurora, a condição de seu pesquisador, privilegiando o seu burgo e a sua gente com a abertura de uma grande janela, voltada para a memória e para o registro de caráter cultural.
    Um método escolheu o autor para o registro da sua narrativa: a cronologia dos acontecimentos, com destaque para a louvação do calendário histórico e para a verificação apodítica, fazendo da história de Aurora uma ciência de grande interesse acadêmico, porque permeada pelos fatos e comprovada pelo rigor da pesquisa.
      Venda Grande D’aurora (Fortaleza, Expressão Gráfica, 2012) é um livro que já nasce aberto para a louvação, pois foi escrito a partir de uma linguagem vigorosa, e com a paixão e o denodo dos que querem tomar a história em suas mãos, fazendo do sentido da vida a sua experiência.
       Trata-se, no caso do autor desse livro, de um historiador que sabe respeitar as suas linhas de pesquisas, que tem a história do Cariri gravada no seu sangue e o orbe do Salgado insculpido na sua consciência.
       Não me compete neste texto fazer a apresentação do autor nem resumir para o leitor a vertente dos acontecimentos. Cumpre-me, isto sim, falar da importância deste livro, da sua precisão histórica e da sua utilidade para os aurorenses e para os historiadores de todo o Ceará.
      Honrou-me o autor com o convite para escrever o prefácio desse livro, mas o que ele fez, em essência, foi homenagear a sua terra e distinguir a sua gente qual a espécime da raça cearense que ainda faz o Ceará renascer, pela tradição do seu povo e pelas lições de vida e de história que deu ao Nordeste do Brasil.


          

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

CONSULTA - Carlos Macedo





- Eu perguntei ao destino:
porque a vida é tão breve?
Ele me disse: menino,
como você se atreve
a perguntar sobre a vida
com esse jeito arrogante?
É feita sob medida
não é curta, nem comprida
é simplesmente, bastante!

- Mas é bastante a quê,
tornei a lhe perguntar,
morre criança e você
não deixa questionar?
Eu enfrentei o destino,
confesso, com muito medo,
meu duvidar repentino
esperava que o ladino
me revelasse o segredo.

- Poeta. Se eu quisesse
revelar, não poderia;
Há coisas que se dissesse
ninguém compreenderia.
Aprenda com o oceano
que ignora os ateus.
E saiba, pois não me engano,
que duvidar é humano
mas a certeza é de Deus.



sábado, 29 de setembro de 2012

Retrato de Alzir Oliveira - Dimas Macedo



                                             
             Intelectual, professor e pesquisador de renome – atividades a que se dedicou sempre com esmero –, Alzir Oliveira nasceu no sítio Mareco, nas proximidades de Quitaiús, município de Lavras da Mangabeira, aos 06 de maio de 1945.
           Filho de Vicência Bezerra de Oliveira e Raimundo Benício de Oliveira; foram seus avós maternos: Cristina Francisca de Sampaio e Joaquim Tomás de Aquino Sampaio, e, paternos: Maria da Cruz Neves e Firmino Benício de Oliveira.
            O nome com que foi batizado constituiu uma homenagem de seu pai ao Padre Alzir Sampaio, vigário de Lavras por mais de trinta anos e grande amigo da família.
            Aprendeu as primeiras letras no sítio Roça Velha, vizinho ao sítio Mareco, com a Profa. Dona Mocinha, transferindo-se depois para o Grupo Escolar de Quitaiús, onde estudou com a Profa. Altair Leite, cursando até a metade do quarto ano primário.
            Em 1956, com a decisão de seu pai de ir morar em Juazeiro do Norte, em busca de horizontes para sua atividade comercial e chances de educação dos filhos, Alzir passou a estudar no Colégio Salesiano Dom Bosco, onde concluiu o primário e iniciou o ginasial.
            Em 1959, foi estudar no Instituto Padre Rinaldi, na cidade de Carpina, Pernambuco, ali terminando o ginásio e iniciando o científico, que veio a concluir no Colégio Diocesano do Crato, em 1965.
           O curso de Graduação em Letras foi realizado na Faculdade de Filosofia do Crato, vinculada à Universidade Regional do Cariri, no período de 1966 a 1969, tendo por colega de vida acadêmica o seu conterrâneo Joaryvar Macedo.
           De 1964 a 1970, lecionou História Geral e Língua Inglesa, no Colégio Diocesano do Crato e em outros educandários da cidade, tais o Ginásio Pio X e o Colégio Santa Teresa.
           De 1971 a 1978, foi professor de Linguística e Língua Portuguesa na Faculdade de Filosofia de Cajazeiras, hoje Centro de Formação de Professores, tendo lecionado também na Faculdade de Direito de Sousa e no Curso de Letras da Fundação Francisco Mascarenhas, em Patos.
            Em 1978, passou a ensinar na Universidade Regional do Nordeste, ingressando, em 1980, na Universidade Estadual da Paraíba, como professor de Linguística e Língua Latina, ali permanecendo até 1994, quando se aposentou, tornando-se professor visitante dessa Universidade de 1995 a 1998. Nessa última data, ingressou, como professor concursado, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde permanece.
             De 1975 a 1978, cursou mestrado em Língua Portuguesa na PUC-RJ, com área de concentração em Dialetologia; e, de 2003 a 2007, realizou o seu doutorado em Linguística Aplicada, no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFRN, desenvolvendo pesquisas voltadas para o ensino das línguas clássicas, nas áreas de letramento e de gêneros discursivos.
              Integrante do grupo Civilizações Antigas, organizado por docentes da Universidade Federal de Minas Gerais, o professor Alzir Oliveira tem participado de inúmeras viagens de estudo, com visitas a sítios arqueológicos greco-romanos na África, Ásia e Europa.
             Em 2000, esteve na Sicília (Itália); em 2001, visitou os Sítios Arqueológicos da Grécia e da Turquia; em 2003, viajou a Bari (na Itália); e, em 2009, realizou o Roteiro de Dom Quixote, na Região de La Mancha, na Espanha, visitando a França em 2011.
              É autor de vários ensaios no campo da sua especialidade, destacando-se, entre eles, “Território da Linguagem”, “Discurso e Prática do Latim no Ensino de Graduação” e “Tradições Populares da Pecuária Nordestina”, incluído este último no Dicionário Crítico Câmara Cascudo.
              É sócio efetivo da Associação Brasileira de Linguística, do Grupo de Estudos Linguísticos do Nordeste, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
             Sempre empenhado na efetivação dos seus estudos científicos, ainda não se permitiu a sua estreia no campo literário. Os seus poucos poemas revelados, contudo, não deixam de expressar os seus sentimentos com relação à terra que o viu nascer.
               Avesso a notoriedades, nunca se deixou levar por vaidades ou elogios de qualquer natureza. A sua formação humanística e a sua simplicidade constituem os seus grandes atributos, sendo também relevantes as suas qualidades espirituais e humanas.
               As reminiscências da infância, vivida no sítio Mareco, em Lavras da Mangabeira, constituem o seu ancoradouro, orgulhando-se de ser ribeirinho do Riacho do Rosário.
               Trata-se, portanto, de um cearense que muito bem nos representa, no campo da erudição e no estudo do grego e do latim; e que honra, com a sua vocação de humanista, a cultura letrada do Brasil.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

TRÊS GÊNIOS DO NORDESTE NELSON RODRIGUES, JORGE AMADO E LUIZ GONZAGA Dideus Sales



Nelson Rodrigues, cronista,
Dramaturgo iluminado;
O genial Jorge Amado,
Fulgurante romancista;
Luiz Gonzaga, um artista
Da sanfona e da canção;
Três notáveis na invenção,
Três gigantes, três arcanos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson Jorge e Gonzagão.

Três símbolos deste país
Deixaram enorme lacuna:
Jorge Amado, de Itabuna,
Nosso grande rei Luiz,
Nelson deixou seu matiz
Na robusta produção.
Os três com certeza não
São sagrados nem profanos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

Três corcéis soltos sem rédea
Nos campos férteis das artes,
Três cetros, três estandartes
Três estros além da média
Nelson deu alma à comédia,
Luiz criou o baião,
Jorge leu com emoção
Os sentimentos baianos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

Três bússolas, três timoneiros
Três videntes, três estetas
Três sonhadores poetas
Três autênticos brasileiros
Três mágicos, três feiticeiros
Três luzes na amplidão
Três sementes de emoção
Lançadas em solos planos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

Três cascatas, três rochedos
Três rapsodos etéreos
Três enigmas, três mistérios
Três boêmios, três aedos
Três decifráveis segredos
Três bombas numa explosão
Três invernos no sertão
Três destinos, três ciganos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

Três plantadores de sonhos
Três jardineiros, três lagos
Três caminheiros, três magos
Três vencedores medonhos
Três estafetas risonhos
Três aves de arribação
Três faróis na escuridão
Três naus em três oceanos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

Três geniais nordestinos
Três astros incandescentes
Três jazidas, três torrentes
Três lentes, três paladinos
Três artistas genuínos
Três monstros da criação
Três mundos de inspiração
Três deuses, três soberanos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

Jorge Amado, absoluto
Em seu ideal político;
Nelson Rodrigues, um crítico
Controverso e muito astuto;
Luiz Gonzaga, um matuto
De apurada aptidão;
Os três legaram à nação
Feitos quase sobre-humanos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

“PARA TODOS” OS NORDESTINOS - Cristina Couto.


Embora não pareça, ou nos passou despercebido, o compositor Chico Buarque de Hollanda cantou e recantou o nordeste brasileiro. Seu primeiro contato com nossa região foi quando musicou a peça “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto, território, até então, completamente desconhecido por ele, fato que levou o artista, em começo de carreira, a pesquisar o lugar.
Defensor das causas sociais, grande observador das cidades, um verdadeiro flâuner, Chico acompanhou de perto o desenvolvimento acelerado dos grandes centros, exatamente, na época do “milagre econômico brasileiro”.  Em São Paulo onde ele acompanhou a demolição da antiga capital do café e a substituição imediata de novas e modernas construções, viu o operário “Pedro Pedreiro” esperar e pegar o trem no subúrbio paulistano com destino ao mundo do trabalho pesado, e subir a construção como se fosse máquina, erguer paredes mágicas, sentar para descansar como se fosse um príncipe, comer feijão com arroz como se fosse o máximo, e tropeçar no céu como se fosse um bêbado, embriagado de trabalho, de cimento e de lágrimas, tropeçar no céu dos seus sonhos nunca realizados, porque nunca chegou a ser nada, o máximo que conseguiu ser foi sempre o “como se fosse” e nunca foi, e acaba morrendo como um estorvo, atrapalhando o tráfego, o público e o sábado.  
Ao pegar carona na “Caravana Holiday de Bye, Bye Brazil,” Chico Buarque se manda de trenó pra Rua do Sol Maceió, pega uma doença em Ilhéus, e com as bênçãos do seu Orixá acha bauxita no Ceará. E segue por um nordeste mudado, urbanizado e televisionado dos meados da década de 1970. Depois imagina ser uma violeira nordestina que sonhou desde menina no Rio ir morar, passa por Sergipe, Pernambuco, Paulo Afonso, Fernando de Noronha e o Sertão do Ceará, mesmo enfrentando muita tormenta chega enfim em Ipanema onde finca residência, sem vontade de voltar.
Em “Para Todos” surge um Chico neto de pernambucano e trineto de baiano que exalta o pernambucano Luiz Gonzaga, os baianos Dorival Caymmi, Gil, Caetano, Bethania, Gal e João Gilberto, e o paraibano Jackson do Pandeiro, revelando a miscigenação brasileira dentro do próprio país, não importando a naturalidade, mas sim, a genialidade, pois, o artista pode ser paulista, pernambucano, cearense ou baiano, na verdade, ele é um cidadão do mundo que “vai na estrada há muitos anos é artista brasileiro”.

Fortaleza, 08 de junho de 2012.
Cristina Couto.



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O SERTÃO NORDESTINO CANTA E PROTESTA NA VOZ DO REI DO BAIÃO



Luiz Lua Gonzaga, o Gonzagão, ícone da música nordestina, sanfoneiro danado de bom, tornou-se personalidade de estilo inconfundível na história da Música Popular Brasileira em razão do talento que o fez único como músico, cantor e compositor. O ano de 2012 será se comemorações pela passagem do centenário de nascimento do inexcedível pernambucano quase cearense. Nordeste VinteUm começa o ano prestando homenagem ao Rei do Baião, a primeira de uma série.

Por Barros Alves

Luiz Gonzaga do Nascimento deu o ar graça a este mundo no dia 13 de dezembro de 1912, na Fazenda Caiçara, de propriedade do Coronel Manuel Aires, localizada na região serrana do Araripe, no município de Exu, no Estado de Pernambucano. Foi o segundo dos nove filhos nascidos da união entre o sanfoneiro Januário José dos Santos e Dona Ana Batista, apelidada Santana. O pai, além de ser conhecido tocador de sanfona na região, consertava instrumentos e era agricultor agregado na citada fazenda. Conta-se que o nome do futuro maioral da sanfona tem o significado místico de tríplice homenagem: a Santa Luzia, cujo dia 13 é a ela dedicado pelo hagiológio católico; a São Luiz de Gonzaga e o sobrenome foi-lhe dado por conta do fato de que dezembro é o mês do nascimento de  Jesus.
Na Exu onde nasceu Luiz Gonzaga faltava escolas e sobrava violência entre Sampaios e Alencares, clãs que disputavam o poder no município do semiárido pernambucano. O menino, inteligente e atilado, não se conformou em apenas observar o pai consertar instrumentos. Logo “agregou-se” como ajudante do “Sinhô” Aires, um rábula pertencente à família dos proprietários. Com ele aprendeu a ler e escrever. Com o pai aprendeu a tocar a “oito baixos” e passou a ganhar uns trocados tocando nas festas da redondeza. Namorador, logo se engraçou de uma cabrocha filha de um remediado da região. O pai de Nazarena – este o nome da pretensa namorada – não aprovou a ousadia do rapaz e Gonzaga resolveu tomar satisfações. Para criar coragem, bebeu uns tragos de cachaça. Perdeu a garota e ganhou uma surra da mãe, Dona Santana. A sova mudou o curso da vida de Gonzaga que irritado com a situação decidiu dar adeus a Exu.

Do Exército para a fama no cenário musical

Prestou serviço militar no Exército, em Fortaleza e em Minas Gerais, onde foi tocador de bumbo. Ganhou uns bons trocados e comprou uma sanfona Honner, de 80 baixos, coisa de profissional. Ao dar baixa no Exército, rumou para Recife, capital do seu Estado, cidade que ele não conhecia. E não foi naquele momento que conheceu, porque o navio em que viajava Gonzaga fez pausa no Rio de Janeiro. O sanfoneiro foi traído pelo espírito boêmio. Foi conhecer o Mangue, bairro onde se concentrava a boemia da cidade. Ali conheceu o baiano Xavier Pinheiro, músico, casado com a portuguesa Leopoldina, a Dina, o quais farejaram o talento do moço nordestino e o levaram para morar com eles no Morro de São Carlos. Ali começou a carreira do futuro Rei do Baião, com a ajuda do melhor acordeonista da época, o mineiro Antenógenes Silva. Este ministrava aulas de acordeom numa escola aberta instalada no Bairro do Flamengo.
A estas alturas Gonzaga já se apresentava com uma Scandali de 120 baixos e se apresentava nas rádios da Cidade Maravilhosa, centro propulsor da cultura musical brasileira. O repertório era vário: valsas, choros, foxtrotes. Foi um grupo de estudantes do Ceará, entre eles Armando Falcão, que se tornaria Ministro da Justiça, quem estimulou Gonzaga a usar o acordeom para tocar músicas de estilo sertanejo. Inicialmente ele estranhou a mudança, porque entendia que a sanfona era um instrumento citadino, inadequado para o tipo de música que se fazia no Nordeste. Para Gonzaga, então, “lá no sertão é só fole e o fole está para o acordeom como o pífano para a flauta”. Mas, finalmente, capitulou e compôs o xamego instrumental “Vira e Mexe”, ganhador do prêmio principal em programa de calouros comandado pelo compositor Ary Barroso. A sorte começou a sorrir para o matuto do Exu. Foi convidado a trabalhar no programa A Hora Sertaneja, sob a liderança de Alfredo Ricardo do Nascimento, o Zé do Norte, paraibano que foi pioneiro na divulgação da cultura nordestina. O programa ia ao ar na Rádio Transmissora, a atual Rádio Globo. Posteriormente trabalhou com a dupla Genésio Arruda e Januário França, que o levaram para gravação em cena cômica de “A Viagem de Genésio”, por terem visto em Gonzaga um sanfoneiro versátil e capaz.
Gonzaga ganhava fama e gravava muitas músicas. A Rádio era o grande canal de divulgação dos artistas que se apresentavam em meados do século passado. Ele teve passagens pelas famosas Rádios Mayrink Veiga e Tamoio, contratado pelo compositor pernambucano Fernando Lobo. Até aí Gonzaga somente puxava o fole. Apareceu-lhe, então, o primeiro parceiro letrista, o fluminense Miguel Lima. Outros surgiram e Gonzaga teve que arrostar obstáculos para gravar como cantor. E, como lembra o historiador da MPB, Tárik de Souza, “Para finalmente estrear como cantor, Gonzaga teve de ameaçar o diretor da gravadora onde era contratado, Vitorio Lattari, da RCA”. Disse que se seu desejo não fosse aceito iria mudar-se para a concorrente Odeon e usaria o nome do pai, Januário, caso continuasse a ser vetado. Então lhe foi aberta a porta e ele gravou a mazurca “Dança Mariquinha”, escrita em parceria com Miguel Lima, que obteve algum sucesso. Mas, os grandes êxitos estavam para vir com “Penerô Xerém” e “Cortando Pano”. Aí estava surgindo de fato o Rei do Baião.

Parceria com Humberto Teixeira produziu grandes sucessos

Como observa Vasco Mariz foi por volta de 1946 que “apareceu no cenário da música popular brasileira o avassalador baião, trazido do Norte por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. O êxito seria estrondoso pela valiosa contribuição rítmica que o baião apresentava, justamente em uma época na qual os ritmos nacionais se amoleciam pela interpretação defeituosa de nossos cantores famosos e a crescente influência estrangeira”. Com efeito, a associação de Luiz Gonzaga com Humberto Teixeira foi profícua na produção de grandes musicais que se popularizaram de modo extraordinário. Mariz insiste em que a popularidade de Gonzagão foi sobretudo resultado dessa parceria com o advogado cearense de Iguatu, compositor de belíssimas letras da música nordestina. “O baião virou maré avassaladora no Brasil: Paraíba, Juazeiro, Baião de dois, Que nem jiló divulgaram o ritmo nordestino, que atravessaria fronteiras com caravanas musicais”, observa o historiador, lembrando que a parceria com Humberto Teixeira terminou em 1950, mas logo apareceram outros importantes nomes para dar continuidade ao trabalho de produção musical de Luiz Gonzaga, entre os quais destaca o médico pernambucano Zé Dantas, com quem Gonzaga compôs A Dança da Moda, Xote das Meninas, Vozes da Seca etc.
Gonzaga teve muitos parceiros. Ele trabalhou sua história musical com 275 parceiros letristas e compositores em 833 faixas de discos, sendo 127 de 78 RPM, 114 regravações, 99 LPs. Os parceiros com os quais mais produziu foram João Silva (187 canções), Zé Dantas (152), Humberto Teixeira (133) e Onildo Almeida (120). Todavia, como lembra a Professora Elba Braga Ramalho, “Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira produziram até o final dos anos 50, parte do repertório mais representativo da música nordestina em disco; no entanto, Zé Dantas também contribuiu em parte para a construção desse patrimônio”.

O declínio, mas não o fim

 Em fins da década dos 50 do século passado, em razão da grande penetração do mercado norte-americano no país, especialmente com a popularização do rock-and-roll, começou um certo declínio da popularidade do Rei do Baião e, consequentemente da música nordestina. Segundo a professora Elba Braga Ramalho, o amigo e parceiro Humberto Teixeira, então deputado federal, “ainda tentou explorar a fama do baião, introduzindo as Caravanas de Cultura,que exportaram o gênero para a Europa e os Estados Unidos”. Mas o esforço não foi suficiente, porque além do rock “os interesses da classe média estavam voltados para a bossa nova”. Mas, se no geral havia declínio da popularidade do baião, o mesmo não se podia dizer da fama do Rei do Baião, que continuava a criar estratégias de audiência voltando-se pra as populações nordestinas que migravam continuamente para os Estados do sul, do sudeste e do centro-oeste, especialmente para o Planalto Central, em razão da construção. Gonzaga também empreendia turnês por todo o país e se gabava de conhecer todas as cidades brasileiras com mais de 4 mil habitantes. O sanfoneiro andarilho não deixou por menos e registrou as andanças em Vida de Viajante, que compôs com Hervê Clodovil, regravou com Gonzaguinha, posteriormente com Fagner, e continua fazendo sucesso.
Enfim, em todos os aspectos, musicalmente Luiz Gonzaga não morreu apesar de ter falecido há 23 anos. Continua no coração do povo brasileiro e, em especial, das populações nordestinas espalhadas por este Brasil afora. De fato, como bem expressa-se a professora Elba Braga Ramalho, “Além do mais, Gonzaga perpetuou sua produção através de diferentes gerações de músicos e compositores. Ele desencadeou o processo de afirmação da música popular nordestina, através de seus seguidores, aqueles simples reprodutores de seu estilo e de seu conjunto típico, anônimos profissionais que deram vida a forrós nas mais distantes cidadezinhas, aqueles que têm produzido um trabalho mais elaborado, conservando um sotaque musical do Nordeste, a exemplo de Dominguinhos.” O Rei do Baião continua sua viagem de ritmos e sons nordestinos na criatividade  musical dos que se consideram seus legítimos sucessores e, sobretudo, na imaginação de quantos se deliciam com o som de sua sanfona choradeira e do seu vozeirão de cabra da peste.


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O Nordeste Saudoso Comemora o Centenário de Luiz Gonzaga - Cristina Couto



Quando o sol calcinou a terra e asa branca bateu asas e voou, Luiz Gonzaga, filho de Januário e Santana, enfrentou a légua tirana em cima de um pau de arara, levando dentro do seu matulão um triângulo, um gonguê, um zabumba e, em sua memória, a rica cultura nordestina.
Sentiu-se um peixe e fez uma grande viagem imaginária pelo Riacho do Navio, correu pro Pajeú e acabou sendo despejado no São Francisco que desembocou no meio do mar. E num desejo de regresso aos rios nordestinos fez o caminho inverso, nadou contra as águas e nesse grande desafio saiu, outra vez, direitinho no Riacho do Navio para desfrutar dos costumes simples e prazerosos do sertão.
 Para rever o seu brejinho, fazer umas caçadas, ver as pegas de boi e andar na vaquejada, mais uma vez dormiu ao som do chocalho e acordou com a passarada e fez questão de ficar longe da notícia, da civilização.
O Luiz apaixonado pela faceira Karolina com “K” que dançou numa Sala de Reboco, viu quando apagaram o candeeiro e derramaram o gás, e mostrou ao Brasil como se dança o Baião, o Xaxado e o Forró, mexendo o corpo e alma, fazendo velho ficar moço. Não era de briga e nem de confusão, mesmo assim, acabou um samba, no Forró de Mané Vito.
Luiz Gonzaga cantou os mitos e as superstições nordestinas, nossas experiências com o tempo e suas modificações climáticas. Ao ouvir o canto da Ema chamou sua morena para acabar com seu medo, pois a Ema traz no meio do seu canto um bocado de azar, principalmente se ela canta no tronco da Jurema, ao ouvir o Vim-vim cantar sabia que alguém estava pra chegar, como chegou o amor no coração das meninas num xote feito para elas.
Em meados de 1950, foi chofer de táxi e descreve um Rio de Janeiro urbanizado, modernizado e acolhedor, utilizando o mapa cartográfico da sua mente, faz o trajeto de Mangaratiba ao Leblon, achou pouco e anos depois, em sonho, atravessou o mundo e foi parar em Moscou para dançar um Pagode Russo, pois no Rio tudo estava mudado na noite de São João.
O que seria do Nordeste se não tivesse Luiz, que não respeitou Januário, que dividiu a vida e o palco com seu filho Gonzaguinha, que cantou o Juazeiro, que se tornou o Rei do Baião e ficou na memória do seu povo.
Em 2012, ano do centenário de Gonzagão, seu forró não é mais o mesmo. O ritmo que se tornou por ele conhecido, em nada se parece com sua forma original. Nem o forró, nem o baião e nem as noites de São João no seu saudoso Sertão. Tudo está modificado, porque tudo muda sobre a terra.

Obrigada, Luiz! Eterno Rei do Baião e Cantador do Sertão.