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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Das Mil e Uma Noites para o folclore nordestino


Cavalo Marinho, animal encantado que vive no mar ou nos rios, é também nome que se dá a um dos mais populares folguedos do folclore brasileiro brincado, sobretudo, na Zona da Mata pernambucana e no agreste da Paraíba. Já foi importante no Rio Grande do Norte e no Ceará, mas atualmente pouco se ouve falar sobre ele. Assemelha-se ao bumba-meu-boi e se inscreve no ciclo de festejos natalinos. É festa de origem oriental, com registro nas Mil e Uma Noite (primeira viagem de Simbad, o marujo). Entre nós tornou-se folguedo em homenagem aos reis magos. Dele há no Brasil notícias fantasiosas e em contos tradicionais desde o século XIX.

A influência oriental para a realização desse folguedo não se dá apenas no Brasil, mas em vários países da Europa e alguns pesquisadores asseguram que o cavalo-marinho seria uma versão brasileira da commedia dell’arte italiana. Com ligeiras modificações e adaptações de região para região, consiste em um auto humorístico-jocoso, com sessenta e três atos e cerca de setenta personagens que representam seres humanos ou fantásticos. O conjunto artístico do folguedo envolve as expressões típicas do teatro, juntamente com a dança, a música e a poesia (loas). Nessa encenação que dura quase uma noite inteira, os músicos tocam sentados um instrumental formado por pandeiro, rabeca, ganzá e reco-reco.

Lopes Gama, em texto de 1840, citado por Câmara Cascudo, já informa sobre o sincretismo entre a festejo herdado do folclore oriental e o bumba-meu-boi: “o sujeito do cavalo marinho é o senhor do boi, da burrinha, da caipora e do Mateus”, estes, personagens típicos do festejo nacional. De igual modo, Sílvio Romero, emContos Populares do Brasil, registra o cavalo-marinho já integrado no bumba-meu-boi e como personagem central da trama lúdica: “Cavalo-marinho, por tua mercê/ mande vir o Boi/ para o povo vê”. Também Gustavo Barroso dá ênfase à presença da representação do cavalo-marinho, o capitão: “É um mestiço alto de chapéu armado com plumas, casaco de enfeites dourados, montado num cavalo de pau, com saiote comprido que envolve as pernas do indivíduo. Sobre a garupa traz uma boneca de pano, a Zebelinha, sua filha. Seguem-no, ladeando, dois meninotes de roupas berrantes: Galante e Arrelequinho”.

A versão do folguedo nos dias atuais, nos lugares onde se dão ao prazer da folclórica encenação, o Capitão Marinho lidera a cena ao oferecer um baile aos Reis Magos. Para isto, contrata dois negros, Mateus e Bastião, personagens cômicos, para tomarem conta do terreiro. Os dois negros são amigos e dividem a mesma mulher, Catirina. No terreiro, os negros passam a se dizer donos do lugar. Então o capitão chama o Guarda da Gurita. Quando a situação é normalizada, surge o Empata Samba interrompendo a festa. Outros personagens de destaque são Ambrósio, Valentão, Matuto da Goma, Mané Joaquim, Véia do Bambu. Há também o Caboclo de Arubá, que é uma entidade sobrenatural que canta todas as linhas de Jurema. Quando entra Mané do Baile, inicia-se o baile, ponto alto da noite. As danças são diversas como o Maguião, o São Gonçalo e o Coco. O boi surge pela manhã e é dividido entre os participantes.

Um dos nomes que deram visibilidade ao Cavalo-marinho em Pernambuco e se alteia entre os mais importantes na história recente desse folguedo é o Mestre Salustiano, responsável pela introdução do cavalo-marinho no Recife. Ele recebeu o título de mestre depois de representar quase todos os personagens da brincadeira e hoje toca sua rabeca no "banco", nome que se dá ao local onde os instrumentistas ficam sentados durante toda a festa. Nas noites de Natal convoca os maiores mestres da zona da mata - Gasosa e Grimário, entre outros - para brincar no centro cultural Ilumiara Zumbi, construído por ele na cidade de Tabajara, próximo a Olinda.

Em Pernambuco, os grupos de cavalo-marinho estão concentrados numa região pequena, formada basicamente pelas cidades de Condado, Aliança, Ferreiros, Camutanga, Itambé e Goiana. As apresentações ocorrem normalmente entre julho e janeiro, com maior intensidade no período que compreende o ciclo natalino, que vai de meados de dezembro até o 6 de janeiro, Dia de Reis.

Loas de Cavalo-marinho

Cavalo marinho,
quem te nomeou?
Foi um cantador
que por aqui passou.

Cavalo marinho,
com quem vais sonhar?
Com mil conchinhas
do fundo do mar.


Cavalo marinho,
quem te deu esse sinal?
Foi a mãe da mãe
da estrela do mar.

Cavalo marinho
dança com a princesa
Se apagar a luz,
a lua está acesa.

Cavalo marinho,
é hora da ceia
A dona da casa
que linda sereia!

Papagaio canta
Periquito chora
Cavalo marinho,
vamo-nos embora!

(Fonte: Batata cozida, mingau de cará, de Eloí Elisabete Bochecho, edição do  Ministério da Educação, Brasília, 2006)

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