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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Zé Rainha: O Rei do Carnaval - Dimas Macedo





             O menino José Ferreira da Silva, nascido no sítio Tatu, em Lavras da Mangabeira-CE, aos 6 de junho de 1933, talvez nunca tenha pensado que um dia participaria de um cortejo, que desfila, solenemente, em memória de nossos ancestrais. Menos ainda que ele seria a Rainha e o centro das atenções de uma procissão carnavalesca, como aconteceu, em março de 2011, na Avenida Domingos Olímpio, em pleno coração de Fortaleza.
            Filho de Júlio José da Silva e de Josefa Arruda da Silva, José perdeu o sobrenome paterno porque foi registrado por uma tia “que não gostava muito dessa história de Silva”. O casal tinha cinco filhos, entre eles, Francisco e Miguel. O pai era agricultor e trabalhava nas terras do coronel Amâncio, no sítio Tatu, mas a família residia na cidade de Lavras.
            José Ferreira da Silva descende de uma dinastia de negros criados por Dona Fideralina Augusto, para regalo da sua condição. Hoje cultuado como figura de destaque do carnaval cearense, afirma, ele próprio, que jamais estudou: “quando me entendi na vida, já foi para trabalhar”.
              Acrescenta que a família veio para a capital cearense fugindo de uma seca, quando ele tinha entre dez e onze anos, aproximadamente. A viagem foi de trem e todos fixaram residência no distrito de Otávio Bonfim, próximo à Estação Ferroviária.
              O pai trabalhou como vigia numa oficina da Rua São Paulo, até morrer, perto dos setenta anos. A mãe “lavava roupa e cozinhava nas casas dos ricos, quando havia banquete”. Fazia chapéus de palha, ofício que aprendeu quando era jovem, em Lavras da Mangabeira. Quando enviuvou, passou a morar na casa de uma irmã, em Fortaleza, e faleceu em 1993.
              José Ferreira Arruda, com o nome civil já modificado, não teve muita escolha. Deu duro para sobreviver na cidade grande: “trabalhei como jardineiro, copeiro, babá, cozinheiro; tudo eu fiz na vida. Não tinha como ser diferente”, diz resignado.
              Morava sempre nos empregos, quase todos no centro. Viveu numa Fortaleza muito pacata, no apogeu da era do cinema, com famílias que saíam aos domingos para ver as vitrines. Uma cidade cheia de hipocrisia, mas recheada, é certo, de muita irreverência, e menos violenta do que nos dias de hoje.
              Um dos seus empregos mais duradouros, e que gosta de relembrar, foi o de “arrumador do Hotel Fortaleza”, de dona Olívia Cardoso, na Rua Senador Pompeu, convivência que lhe deu um jeito perverso e amoroso de ser, típico de muitos transformistas e de muitas figuras emblemáticas da nossa cultura popular.
               Mas, desde a juventude, José Ferreira Arruda achava os maracatus muito bonitos. Na década de 1930, mais precisamente a partir de 1936, Raimundo Feitosa deu a sua cartada, com a criação do maracatu Az de Ouro, que José Ferreira Arruda tanto admirou. Nos anos 1950, o maracatu Az de Espadas era uma apoteose. Levava muita gente ao corso. Depois vieram o Leão Coroado, o Rancho Alegre, o Rancho de Iracema, o Rei de Paus e a Nação Uirapuru.
               Até final da década de 1960, os maracatus firmaram-se como expressões culturais da nossa cultura carnavalesca.  Chegavam a ter arremedos de carros alegóricos, com navios negreiros, casas de farinha, engenhos. Mas sem as exigências dos regulamentos e das comissões julgadoras.
           Em 1963, José Ferreira Arruda não resistiu: entrou para o maracatu Rei de Paus, onde permaneceu durante vinte anos. Começou como Princesa. Em 1964, enquanto a cena política brasileira fervia, o radialista José Lisboa promoveu uma eleição no programa Fim-de-Semana na Taba, da Rádio Iracema, para escolher a nova Rainha desse importante bloco cearense. José Ferreira saiu, então, vitorioso, e mudou o nome para Zé Rainha.
           A dimensão carnavalesca à qual Zé Rainha pertence enfatiza a corte: príncipes e princesas, o Rei e a Rainha. O rosto tingido de preto não menospreza uma etnia, pois Zé Rainha, que descende de negros do Tatu, uma conhecida senzala cearense, sabe que pertence à mestiçagem cabocla, e que a Madrinha Fidera está na origem de tudo.
          O seu rosto é anualmente pintado de fuligem de lamparina, abafada numa lata de querosene: “depois se raspa o pó que vai ser misturado à vaselina sem cheiro”, ensina o Mestre Zé Rainha. É como se pintam os rostos no Teatro Nô ou no Kabuki, acrescenta o autor deste artigo.
          A pintura não provoca alergia, pelo menos em Zé Rainha. A sua aplicação constitui um ritual, depois de vestir a blusa e de colocar a peruca. Diante do espelho, o batom acentua a linha dos lábios e a mistura é aplicada com cuidado, como se compusesse uma máscara africana, daquelas que inspiraram Picasso para a invenção do cubismo.
          Por isso, Zé Rainha, nessas ocasiões, sempre se acha vestido com altivez. Durante muito tempo foi assim. Misógino, o maracatu recrutava homens, como no teatro elisabetano. Muitos, no começo, eram estivadores que faziam o papel de “negronas”, como diz Zé Rainha. Depois entraram as mulheres, como a Bida, do Leão Coroado, que também era negra.
          Percebendo que o maracatu de Pernambuco não se pinta, e se veste de forma menos pomposa e elegante, Zé Rainha decidiu inovar, introduzindo o luxo no cortejo cearense, sobressaindo-se, na história do carnaval, exatamente por essa inovação. Antes as roupas eram brancas, com detalhes pretos ou vermelhos, conforme mostram as fotos do passado.
           Zé Rainha, no entanto, fez questão de realçar o brilho, exigindo brocados, lantejoulas, miçangas e outros adereços requintados, porém sempre fiel às suas origens sociais. Conhece todos os maracatus pernambucanos que fizeram apresentações em Fortaleza, e deita regras: “o daqui tem mais respeito, aquele ritmo mais lento, as pessoas mais bem vestidas”.
         Não reclama a falta de apoio oficial, pois é daqueles que vestem a camisa da sua condição de brincante, para o que der e vier. Em 1962, brincou no cordão Garotas do Sputinik - “coisas da juventude”- e desfilou na escola de samba Império Ideal, num enredo em que participava um maracatu, sendo ele, como não poderia deixar de ser, a Rainha.
            Católico, devoto de Nossa Senhora da Conceição e de São José, de quem tem “um vulto”, Zé Rainha é categórico ao negar a relação dos maracatus com a umbanda. Enfático, até demais, como se fosse depreciativa essa forma de aproximação: “o povo não tem essa besteira, não tem essa ligação”, diz, contendo a irritação.
            Fala de um pai-de-santo que muito admira (Padrinho Zé Alberto), que adorava maracatus e saía de príncipe, todos os anos, até morrer. Outro, segundo ele, que “cantou e subiu”, foi Luiz de Xangô. Lembra, por igual, o nome de um brincante famoso: Zé Tatá, que marcou época em Fortaleza, no tempo dos bordéis, uma espécie de Madame Satã, em versão cearense, e que sempre saía de Princesa.
          Não é à toa que José Ferreira Arruda é Zé Rainha. Só que ele se recusa a viver a personagem apenas durante os dias da festa. Ele é Zé Rainha todos os dias do ano. Assim seu nome está escrito em seu cartão de visitas desde a década de 1980, quando tinha uma casa de cômodos, na Rua 24 de maio, nº 1094.
           Hoje, ele mora em um labirinto de pequenos compartimentos, no bairro de Jacarecanga. Uma espécie de cortiço, protegido dos olhares de quem passa. Condição de vida muito difícil para quem, aos setenta anos, não conta com uma aposentadoria: “por causa do protocolo, que é demais. Prometem para janeiro do ano que vem”, diz com resignação e sem muita esperança.
           E enquanto o tempo passa, o fogoso Zé Rainha continua bailando, como se estivesse no ritmo de uma velha cantiga popular. Faz biscates, conta com a ajuda dos amigos e do pessoal do maracatu Az de Ouro. Mas não faz alarde da miséria. É altivo o bastante para não passar por vítima. Quando soube que a Rainha Mãe, Elizabeth II estava no trono há 50 anos, disse que teriam que providenciar um carrinho para ele desfilar, pois, quem é Rainha, nunca deixa de estar no topo.
           Diz que a rainha precisa ter porte. Ela não canta as loas, mas sorri, acena para o público e se embala nas ancas de arame da saia rodada. Descarta, contudo, as rainhas afetadas, porque Rainha, para ele, se impõe sem maiores esforços.
          Chegou a usar tamancos, mas se equilibrava mal, pois, afinal de contas, a roupa pesa em torno de quarenta quilos. Hoje usa tênis e relembra o auge da Ispáia Brasa, quando o modelo de escola de samba carioca estava sendo exportado para todo o Brasil, por meio da televisão, nos anos dourados da década de 1970.
           Zé Rainha não para. Sempre se prepara para o próximo carnaval, a despeito das crises, mergulhando, de corpo e de espírito, nessa maravilhosa aventura de viver a sua condição. Sabe que já chegou ao posto de Rei do Carnaval. E que Lavras da Mangabeira não produziu ninguém que a ele se possa comparar, pelo menos no plano da cultura. É o afrodescendente que melhor representa o sertão do Ceará.

                                                                                                                                                                                                                                                            



SERTANIDADE - Barros Alves



(Uma homenagem a minha terra natal, Mombaça)

Basta-me o cheiro sertanejo da caatinga
quando  o sol se insinua assim, devasso,
e vem roubar olhares das meninas
que nos quintais pirateiam sonho e afagos.

Basta-me o pôr-do-sol, vermelhidão
de lábios carmesins em oferenda,
poema aceso, virgem flor agreste
com cheiro das meninas  do sertão.

Basta-me o anoitecer de plenilúnio
e o olhar de Deus espreitando na amplidão,
e as conversas matutas  no terreiro
e os amores a medo sob estrelas.

Bastam-me madrugadas e cantares
e a musicalidade violeira.
Um verso, uma cachaça, um olhar furtivo,
Um beijo na morena mais brejeira.


Das Mil e Uma Noites para o folclore nordestino


Cavalo Marinho, animal encantado que vive no mar ou nos rios, é também nome que se dá a um dos mais populares folguedos do folclore brasileiro brincado, sobretudo, na Zona da Mata pernambucana e no agreste da Paraíba. Já foi importante no Rio Grande do Norte e no Ceará, mas atualmente pouco se ouve falar sobre ele. Assemelha-se ao bumba-meu-boi e se inscreve no ciclo de festejos natalinos. É festa de origem oriental, com registro nas Mil e Uma Noite (primeira viagem de Simbad, o marujo). Entre nós tornou-se folguedo em homenagem aos reis magos. Dele há no Brasil notícias fantasiosas e em contos tradicionais desde o século XIX.

A influência oriental para a realização desse folguedo não se dá apenas no Brasil, mas em vários países da Europa e alguns pesquisadores asseguram que o cavalo-marinho seria uma versão brasileira da commedia dell’arte italiana. Com ligeiras modificações e adaptações de região para região, consiste em um auto humorístico-jocoso, com sessenta e três atos e cerca de setenta personagens que representam seres humanos ou fantásticos. O conjunto artístico do folguedo envolve as expressões típicas do teatro, juntamente com a dança, a música e a poesia (loas). Nessa encenação que dura quase uma noite inteira, os músicos tocam sentados um instrumental formado por pandeiro, rabeca, ganzá e reco-reco.

Lopes Gama, em texto de 1840, citado por Câmara Cascudo, já informa sobre o sincretismo entre a festejo herdado do folclore oriental e o bumba-meu-boi: “o sujeito do cavalo marinho é o senhor do boi, da burrinha, da caipora e do Mateus”, estes, personagens típicos do festejo nacional. De igual modo, Sílvio Romero, emContos Populares do Brasil, registra o cavalo-marinho já integrado no bumba-meu-boi e como personagem central da trama lúdica: “Cavalo-marinho, por tua mercê/ mande vir o Boi/ para o povo vê”. Também Gustavo Barroso dá ênfase à presença da representação do cavalo-marinho, o capitão: “É um mestiço alto de chapéu armado com plumas, casaco de enfeites dourados, montado num cavalo de pau, com saiote comprido que envolve as pernas do indivíduo. Sobre a garupa traz uma boneca de pano, a Zebelinha, sua filha. Seguem-no, ladeando, dois meninotes de roupas berrantes: Galante e Arrelequinho”.

A versão do folguedo nos dias atuais, nos lugares onde se dão ao prazer da folclórica encenação, o Capitão Marinho lidera a cena ao oferecer um baile aos Reis Magos. Para isto, contrata dois negros, Mateus e Bastião, personagens cômicos, para tomarem conta do terreiro. Os dois negros são amigos e dividem a mesma mulher, Catirina. No terreiro, os negros passam a se dizer donos do lugar. Então o capitão chama o Guarda da Gurita. Quando a situação é normalizada, surge o Empata Samba interrompendo a festa. Outros personagens de destaque são Ambrósio, Valentão, Matuto da Goma, Mané Joaquim, Véia do Bambu. Há também o Caboclo de Arubá, que é uma entidade sobrenatural que canta todas as linhas de Jurema. Quando entra Mané do Baile, inicia-se o baile, ponto alto da noite. As danças são diversas como o Maguião, o São Gonçalo e o Coco. O boi surge pela manhã e é dividido entre os participantes.

Um dos nomes que deram visibilidade ao Cavalo-marinho em Pernambuco e se alteia entre os mais importantes na história recente desse folguedo é o Mestre Salustiano, responsável pela introdução do cavalo-marinho no Recife. Ele recebeu o título de mestre depois de representar quase todos os personagens da brincadeira e hoje toca sua rabeca no "banco", nome que se dá ao local onde os instrumentistas ficam sentados durante toda a festa. Nas noites de Natal convoca os maiores mestres da zona da mata - Gasosa e Grimário, entre outros - para brincar no centro cultural Ilumiara Zumbi, construído por ele na cidade de Tabajara, próximo a Olinda.

Em Pernambuco, os grupos de cavalo-marinho estão concentrados numa região pequena, formada basicamente pelas cidades de Condado, Aliança, Ferreiros, Camutanga, Itambé e Goiana. As apresentações ocorrem normalmente entre julho e janeiro, com maior intensidade no período que compreende o ciclo natalino, que vai de meados de dezembro até o 6 de janeiro, Dia de Reis.

Loas de Cavalo-marinho

Cavalo marinho,
quem te nomeou?
Foi um cantador
que por aqui passou.

Cavalo marinho,
com quem vais sonhar?
Com mil conchinhas
do fundo do mar.


Cavalo marinho,
quem te deu esse sinal?
Foi a mãe da mãe
da estrela do mar.

Cavalo marinho
dança com a princesa
Se apagar a luz,
a lua está acesa.

Cavalo marinho,
é hora da ceia
A dona da casa
que linda sereia!

Papagaio canta
Periquito chora
Cavalo marinho,
vamo-nos embora!

(Fonte: Batata cozida, mingau de cará, de Eloí Elisabete Bochecho, edição do  Ministério da Educação, Brasília, 2006)

Patativa: entre a norma culta e o verso popular Barros Alves



Há dez anos, no dia 8 de julho de 2002, falecia Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, poeta-ícone da nordestinidade. Nascido nos cafundós da Serra de Santana, no Cariri cearense, foi privilegiado pelo bafejo das musas que dele fizeram poeta de alta lira. Homem de poucas letras, mas dotado de larga inspiração; nasceu, cresceu e viveu num microcosmo cheio de pobreza e miséria social, mas desse ambiente hostil soube tirar a seiva de uma poesia eivada de denúncias e protesto contra a incúria dos poderosos e a leniência de quantos têm a obrigação moral de debelar as injustiças sociais. Em extrema paradoxalidade metafórica, Patativa bebeu na aridez da terra seca dos sertões adustos a água que regou a fertilidade de seu verso rijo e forte; foi buscar na fragilidade das relações entre os pobres, caminheiros, romeiros e retirantes, a fortaleza de uma poesia que se fez duradoura, porque assentada na eternidade dos mais comezinhos sentimentos humanos.
Patativa foi exímio improvisador sem ser repentista nos moldes clássicos do cantador violeiro; não era cordelista nem poeta de bancada, muito menos um poeta de recorte clássico. Mas Patativa perambulou por todos esses caminhos da poesia brasileira. Construiu a literatura de cordel da melhor qualidade quando escreveu folhetos de encomenda como as “Glosas sobre o comunismo” (“Como popular versista/ provo com os versos meus/ ser inimigo de Deus/ o regime comunista/ ali não há quem assista/ um ato de adoração/ nesta lei de confusão/ criada pelo Demônio/ não existe matrimônio/ e é contra a religião!”); escreveu na forma nobre da poesia clássica, o soneto como o que transcrevemos, cujo conteúdo define severa crítica aos processos de cooptação eleitoral e logro político, ainda vigorantes entre nós nos dias hodiernos. Atente-se para o universo vocabular de um poeta que se dizia analfabeto, mas que na verdade, tinha dicção erudita:
O Peixe

Tendo por berço o lago cristalino,
Folga o peixe, a nadar todo inocente,
Medo ou receio do porvir não sente,
Pois vive incauto do fatal destino.
Se na ponta de um fio longo e fino
A isca avista, ferra-a inconsciente,
Ficando o pobre peixe de repente,
Preso ao anzol do pescador ladino.
O camponês, também, do nosso Estado,
Ante a campanha eleitoral, coitado!
Daquele peixe tem a mesma sorte.
Antes do pleito, festa, riso e gosto,
Depois do pleito, imposto e mais imposto.
Pobre matuto do sertão do Norte!
E vate de Assaré fez poesia matuta, em verso de linguajar caricato, posto que ele bem conhecia a norma culta da nossa língua, de modo que a dicção amatutada de muitas de suas poesias não era uma invenção, mas uma invencionice popularesca agradável aos ouvidos de uma maioria sem qualquer seletividade auditiva, desconhecedora da originalidade neste mister. Enfim, Patativa é um grande poeta porque transitou nesses gêneros poéticos com fidalguia e soube agradar a gregos e troianos, no terreno pantanoso da política, inclusive. Mas, aí é outra história que não cabe nem convém neste espaço.


2012/9/18 Cristina Maria Maria <cmacouto@yahoo.com.br>