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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O SERTÃO NORDESTINO CANTA E PROTESTA NA VOZ DO REI DO BAIÃO



Luiz Lua Gonzaga, o Gonzagão, ícone da música nordestina, sanfoneiro danado de bom, tornou-se personalidade de estilo inconfundível na história da Música Popular Brasileira em razão do talento que o fez único como músico, cantor e compositor. O ano de 2012 será se comemorações pela passagem do centenário de nascimento do inexcedível pernambucano quase cearense. Nordeste VinteUm começa o ano prestando homenagem ao Rei do Baião, a primeira de uma série.

Por Barros Alves

Luiz Gonzaga do Nascimento deu o ar graça a este mundo no dia 13 de dezembro de 1912, na Fazenda Caiçara, de propriedade do Coronel Manuel Aires, localizada na região serrana do Araripe, no município de Exu, no Estado de Pernambucano. Foi o segundo dos nove filhos nascidos da união entre o sanfoneiro Januário José dos Santos e Dona Ana Batista, apelidada Santana. O pai, além de ser conhecido tocador de sanfona na região, consertava instrumentos e era agricultor agregado na citada fazenda. Conta-se que o nome do futuro maioral da sanfona tem o significado místico de tríplice homenagem: a Santa Luzia, cujo dia 13 é a ela dedicado pelo hagiológio católico; a São Luiz de Gonzaga e o sobrenome foi-lhe dado por conta do fato de que dezembro é o mês do nascimento de  Jesus.
Na Exu onde nasceu Luiz Gonzaga faltava escolas e sobrava violência entre Sampaios e Alencares, clãs que disputavam o poder no município do semiárido pernambucano. O menino, inteligente e atilado, não se conformou em apenas observar o pai consertar instrumentos. Logo “agregou-se” como ajudante do “Sinhô” Aires, um rábula pertencente à família dos proprietários. Com ele aprendeu a ler e escrever. Com o pai aprendeu a tocar a “oito baixos” e passou a ganhar uns trocados tocando nas festas da redondeza. Namorador, logo se engraçou de uma cabrocha filha de um remediado da região. O pai de Nazarena – este o nome da pretensa namorada – não aprovou a ousadia do rapaz e Gonzaga resolveu tomar satisfações. Para criar coragem, bebeu uns tragos de cachaça. Perdeu a garota e ganhou uma surra da mãe, Dona Santana. A sova mudou o curso da vida de Gonzaga que irritado com a situação decidiu dar adeus a Exu.

Do Exército para a fama no cenário musical

Prestou serviço militar no Exército, em Fortaleza e em Minas Gerais, onde foi tocador de bumbo. Ganhou uns bons trocados e comprou uma sanfona Honner, de 80 baixos, coisa de profissional. Ao dar baixa no Exército, rumou para Recife, capital do seu Estado, cidade que ele não conhecia. E não foi naquele momento que conheceu, porque o navio em que viajava Gonzaga fez pausa no Rio de Janeiro. O sanfoneiro foi traído pelo espírito boêmio. Foi conhecer o Mangue, bairro onde se concentrava a boemia da cidade. Ali conheceu o baiano Xavier Pinheiro, músico, casado com a portuguesa Leopoldina, a Dina, o quais farejaram o talento do moço nordestino e o levaram para morar com eles no Morro de São Carlos. Ali começou a carreira do futuro Rei do Baião, com a ajuda do melhor acordeonista da época, o mineiro Antenógenes Silva. Este ministrava aulas de acordeom numa escola aberta instalada no Bairro do Flamengo.
A estas alturas Gonzaga já se apresentava com uma Scandali de 120 baixos e se apresentava nas rádios da Cidade Maravilhosa, centro propulsor da cultura musical brasileira. O repertório era vário: valsas, choros, foxtrotes. Foi um grupo de estudantes do Ceará, entre eles Armando Falcão, que se tornaria Ministro da Justiça, quem estimulou Gonzaga a usar o acordeom para tocar músicas de estilo sertanejo. Inicialmente ele estranhou a mudança, porque entendia que a sanfona era um instrumento citadino, inadequado para o tipo de música que se fazia no Nordeste. Para Gonzaga, então, “lá no sertão é só fole e o fole está para o acordeom como o pífano para a flauta”. Mas, finalmente, capitulou e compôs o xamego instrumental “Vira e Mexe”, ganhador do prêmio principal em programa de calouros comandado pelo compositor Ary Barroso. A sorte começou a sorrir para o matuto do Exu. Foi convidado a trabalhar no programa A Hora Sertaneja, sob a liderança de Alfredo Ricardo do Nascimento, o Zé do Norte, paraibano que foi pioneiro na divulgação da cultura nordestina. O programa ia ao ar na Rádio Transmissora, a atual Rádio Globo. Posteriormente trabalhou com a dupla Genésio Arruda e Januário França, que o levaram para gravação em cena cômica de “A Viagem de Genésio”, por terem visto em Gonzaga um sanfoneiro versátil e capaz.
Gonzaga ganhava fama e gravava muitas músicas. A Rádio era o grande canal de divulgação dos artistas que se apresentavam em meados do século passado. Ele teve passagens pelas famosas Rádios Mayrink Veiga e Tamoio, contratado pelo compositor pernambucano Fernando Lobo. Até aí Gonzaga somente puxava o fole. Apareceu-lhe, então, o primeiro parceiro letrista, o fluminense Miguel Lima. Outros surgiram e Gonzaga teve que arrostar obstáculos para gravar como cantor. E, como lembra o historiador da MPB, Tárik de Souza, “Para finalmente estrear como cantor, Gonzaga teve de ameaçar o diretor da gravadora onde era contratado, Vitorio Lattari, da RCA”. Disse que se seu desejo não fosse aceito iria mudar-se para a concorrente Odeon e usaria o nome do pai, Januário, caso continuasse a ser vetado. Então lhe foi aberta a porta e ele gravou a mazurca “Dança Mariquinha”, escrita em parceria com Miguel Lima, que obteve algum sucesso. Mas, os grandes êxitos estavam para vir com “Penerô Xerém” e “Cortando Pano”. Aí estava surgindo de fato o Rei do Baião.

Parceria com Humberto Teixeira produziu grandes sucessos

Como observa Vasco Mariz foi por volta de 1946 que “apareceu no cenário da música popular brasileira o avassalador baião, trazido do Norte por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. O êxito seria estrondoso pela valiosa contribuição rítmica que o baião apresentava, justamente em uma época na qual os ritmos nacionais se amoleciam pela interpretação defeituosa de nossos cantores famosos e a crescente influência estrangeira”. Com efeito, a associação de Luiz Gonzaga com Humberto Teixeira foi profícua na produção de grandes musicais que se popularizaram de modo extraordinário. Mariz insiste em que a popularidade de Gonzagão foi sobretudo resultado dessa parceria com o advogado cearense de Iguatu, compositor de belíssimas letras da música nordestina. “O baião virou maré avassaladora no Brasil: Paraíba, Juazeiro, Baião de dois, Que nem jiló divulgaram o ritmo nordestino, que atravessaria fronteiras com caravanas musicais”, observa o historiador, lembrando que a parceria com Humberto Teixeira terminou em 1950, mas logo apareceram outros importantes nomes para dar continuidade ao trabalho de produção musical de Luiz Gonzaga, entre os quais destaca o médico pernambucano Zé Dantas, com quem Gonzaga compôs A Dança da Moda, Xote das Meninas, Vozes da Seca etc.
Gonzaga teve muitos parceiros. Ele trabalhou sua história musical com 275 parceiros letristas e compositores em 833 faixas de discos, sendo 127 de 78 RPM, 114 regravações, 99 LPs. Os parceiros com os quais mais produziu foram João Silva (187 canções), Zé Dantas (152), Humberto Teixeira (133) e Onildo Almeida (120). Todavia, como lembra a Professora Elba Braga Ramalho, “Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira produziram até o final dos anos 50, parte do repertório mais representativo da música nordestina em disco; no entanto, Zé Dantas também contribuiu em parte para a construção desse patrimônio”.

O declínio, mas não o fim

 Em fins da década dos 50 do século passado, em razão da grande penetração do mercado norte-americano no país, especialmente com a popularização do rock-and-roll, começou um certo declínio da popularidade do Rei do Baião e, consequentemente da música nordestina. Segundo a professora Elba Braga Ramalho, o amigo e parceiro Humberto Teixeira, então deputado federal, “ainda tentou explorar a fama do baião, introduzindo as Caravanas de Cultura,que exportaram o gênero para a Europa e os Estados Unidos”. Mas o esforço não foi suficiente, porque além do rock “os interesses da classe média estavam voltados para a bossa nova”. Mas, se no geral havia declínio da popularidade do baião, o mesmo não se podia dizer da fama do Rei do Baião, que continuava a criar estratégias de audiência voltando-se pra as populações nordestinas que migravam continuamente para os Estados do sul, do sudeste e do centro-oeste, especialmente para o Planalto Central, em razão da construção. Gonzaga também empreendia turnês por todo o país e se gabava de conhecer todas as cidades brasileiras com mais de 4 mil habitantes. O sanfoneiro andarilho não deixou por menos e registrou as andanças em Vida de Viajante, que compôs com Hervê Clodovil, regravou com Gonzaguinha, posteriormente com Fagner, e continua fazendo sucesso.
Enfim, em todos os aspectos, musicalmente Luiz Gonzaga não morreu apesar de ter falecido há 23 anos. Continua no coração do povo brasileiro e, em especial, das populações nordestinas espalhadas por este Brasil afora. De fato, como bem expressa-se a professora Elba Braga Ramalho, “Além do mais, Gonzaga perpetuou sua produção através de diferentes gerações de músicos e compositores. Ele desencadeou o processo de afirmação da música popular nordestina, através de seus seguidores, aqueles simples reprodutores de seu estilo e de seu conjunto típico, anônimos profissionais que deram vida a forrós nas mais distantes cidadezinhas, aqueles que têm produzido um trabalho mais elaborado, conservando um sotaque musical do Nordeste, a exemplo de Dominguinhos.” O Rei do Baião continua sua viagem de ritmos e sons nordestinos na criatividade  musical dos que se consideram seus legítimos sucessores e, sobretudo, na imaginação de quantos se deliciam com o som de sua sanfona choradeira e do seu vozeirão de cabra da peste.


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O Nordeste Saudoso Comemora o Centenário de Luiz Gonzaga - Cristina Couto



Quando o sol calcinou a terra e asa branca bateu asas e voou, Luiz Gonzaga, filho de Januário e Santana, enfrentou a légua tirana em cima de um pau de arara, levando dentro do seu matulão um triângulo, um gonguê, um zabumba e, em sua memória, a rica cultura nordestina.
Sentiu-se um peixe e fez uma grande viagem imaginária pelo Riacho do Navio, correu pro Pajeú e acabou sendo despejado no São Francisco que desembocou no meio do mar. E num desejo de regresso aos rios nordestinos fez o caminho inverso, nadou contra as águas e nesse grande desafio saiu, outra vez, direitinho no Riacho do Navio para desfrutar dos costumes simples e prazerosos do sertão.
 Para rever o seu brejinho, fazer umas caçadas, ver as pegas de boi e andar na vaquejada, mais uma vez dormiu ao som do chocalho e acordou com a passarada e fez questão de ficar longe da notícia, da civilização.
O Luiz apaixonado pela faceira Karolina com “K” que dançou numa Sala de Reboco, viu quando apagaram o candeeiro e derramaram o gás, e mostrou ao Brasil como se dança o Baião, o Xaxado e o Forró, mexendo o corpo e alma, fazendo velho ficar moço. Não era de briga e nem de confusão, mesmo assim, acabou um samba, no Forró de Mané Vito.
Luiz Gonzaga cantou os mitos e as superstições nordestinas, nossas experiências com o tempo e suas modificações climáticas. Ao ouvir o canto da Ema chamou sua morena para acabar com seu medo, pois a Ema traz no meio do seu canto um bocado de azar, principalmente se ela canta no tronco da Jurema, ao ouvir o Vim-vim cantar sabia que alguém estava pra chegar, como chegou o amor no coração das meninas num xote feito para elas.
Em meados de 1950, foi chofer de táxi e descreve um Rio de Janeiro urbanizado, modernizado e acolhedor, utilizando o mapa cartográfico da sua mente, faz o trajeto de Mangaratiba ao Leblon, achou pouco e anos depois, em sonho, atravessou o mundo e foi parar em Moscou para dançar um Pagode Russo, pois no Rio tudo estava mudado na noite de São João.
O que seria do Nordeste se não tivesse Luiz, que não respeitou Januário, que dividiu a vida e o palco com seu filho Gonzaguinha, que cantou o Juazeiro, que se tornou o Rei do Baião e ficou na memória do seu povo.
Em 2012, ano do centenário de Gonzagão, seu forró não é mais o mesmo. O ritmo que se tornou por ele conhecido, em nada se parece com sua forma original. Nem o forró, nem o baião e nem as noites de São João no seu saudoso Sertão. Tudo está modificado, porque tudo muda sobre a terra.

Obrigada, Luiz! Eterno Rei do Baião e Cantador do Sertão.