Ocorreu um erro neste gadget

sábado, 29 de setembro de 2012

Retrato de Alzir Oliveira - Dimas Macedo



                                             
             Intelectual, professor e pesquisador de renome – atividades a que se dedicou sempre com esmero –, Alzir Oliveira nasceu no sítio Mareco, nas proximidades de Quitaiús, município de Lavras da Mangabeira, aos 06 de maio de 1945.
           Filho de Vicência Bezerra de Oliveira e Raimundo Benício de Oliveira; foram seus avós maternos: Cristina Francisca de Sampaio e Joaquim Tomás de Aquino Sampaio, e, paternos: Maria da Cruz Neves e Firmino Benício de Oliveira.
            O nome com que foi batizado constituiu uma homenagem de seu pai ao Padre Alzir Sampaio, vigário de Lavras por mais de trinta anos e grande amigo da família.
            Aprendeu as primeiras letras no sítio Roça Velha, vizinho ao sítio Mareco, com a Profa. Dona Mocinha, transferindo-se depois para o Grupo Escolar de Quitaiús, onde estudou com a Profa. Altair Leite, cursando até a metade do quarto ano primário.
            Em 1956, com a decisão de seu pai de ir morar em Juazeiro do Norte, em busca de horizontes para sua atividade comercial e chances de educação dos filhos, Alzir passou a estudar no Colégio Salesiano Dom Bosco, onde concluiu o primário e iniciou o ginasial.
            Em 1959, foi estudar no Instituto Padre Rinaldi, na cidade de Carpina, Pernambuco, ali terminando o ginásio e iniciando o científico, que veio a concluir no Colégio Diocesano do Crato, em 1965.
           O curso de Graduação em Letras foi realizado na Faculdade de Filosofia do Crato, vinculada à Universidade Regional do Cariri, no período de 1966 a 1969, tendo por colega de vida acadêmica o seu conterrâneo Joaryvar Macedo.
           De 1964 a 1970, lecionou História Geral e Língua Inglesa, no Colégio Diocesano do Crato e em outros educandários da cidade, tais o Ginásio Pio X e o Colégio Santa Teresa.
           De 1971 a 1978, foi professor de Linguística e Língua Portuguesa na Faculdade de Filosofia de Cajazeiras, hoje Centro de Formação de Professores, tendo lecionado também na Faculdade de Direito de Sousa e no Curso de Letras da Fundação Francisco Mascarenhas, em Patos.
            Em 1978, passou a ensinar na Universidade Regional do Nordeste, ingressando, em 1980, na Universidade Estadual da Paraíba, como professor de Linguística e Língua Latina, ali permanecendo até 1994, quando se aposentou, tornando-se professor visitante dessa Universidade de 1995 a 1998. Nessa última data, ingressou, como professor concursado, na Universidade Federal do Rio Grande do Norte, onde permanece.
             De 1975 a 1978, cursou mestrado em Língua Portuguesa na PUC-RJ, com área de concentração em Dialetologia; e, de 2003 a 2007, realizou o seu doutorado em Linguística Aplicada, no Programa de Pós-Graduação em Estudos da Linguagem da UFRN, desenvolvendo pesquisas voltadas para o ensino das línguas clássicas, nas áreas de letramento e de gêneros discursivos.
              Integrante do grupo Civilizações Antigas, organizado por docentes da Universidade Federal de Minas Gerais, o professor Alzir Oliveira tem participado de inúmeras viagens de estudo, com visitas a sítios arqueológicos greco-romanos na África, Ásia e Europa.
             Em 2000, esteve na Sicília (Itália); em 2001, visitou os Sítios Arqueológicos da Grécia e da Turquia; em 2003, viajou a Bari (na Itália); e, em 2009, realizou o Roteiro de Dom Quixote, na Região de La Mancha, na Espanha, visitando a França em 2011.
              É autor de vários ensaios no campo da sua especialidade, destacando-se, entre eles, “Território da Linguagem”, “Discurso e Prática do Latim no Ensino de Graduação” e “Tradições Populares da Pecuária Nordestina”, incluído este último no Dicionário Crítico Câmara Cascudo.
              É sócio efetivo da Associação Brasileira de Linguística, do Grupo de Estudos Linguísticos do Nordeste, da Sociedade Brasileira de Estudos Clássicos e da Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência.
             Sempre empenhado na efetivação dos seus estudos científicos, ainda não se permitiu a sua estreia no campo literário. Os seus poucos poemas revelados, contudo, não deixam de expressar os seus sentimentos com relação à terra que o viu nascer.
               Avesso a notoriedades, nunca se deixou levar por vaidades ou elogios de qualquer natureza. A sua formação humanística e a sua simplicidade constituem os seus grandes atributos, sendo também relevantes as suas qualidades espirituais e humanas.
               As reminiscências da infância, vivida no sítio Mareco, em Lavras da Mangabeira, constituem o seu ancoradouro, orgulhando-se de ser ribeirinho do Riacho do Rosário.
               Trata-se, portanto, de um cearense que muito bem nos representa, no campo da erudição e no estudo do grego e do latim; e que honra, com a sua vocação de humanista, a cultura letrada do Brasil.

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

TRÊS GÊNIOS DO NORDESTE NELSON RODRIGUES, JORGE AMADO E LUIZ GONZAGA Dideus Sales



Nelson Rodrigues, cronista,
Dramaturgo iluminado;
O genial Jorge Amado,
Fulgurante romancista;
Luiz Gonzaga, um artista
Da sanfona e da canção;
Três notáveis na invenção,
Três gigantes, três arcanos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson Jorge e Gonzagão.

Três símbolos deste país
Deixaram enorme lacuna:
Jorge Amado, de Itabuna,
Nosso grande rei Luiz,
Nelson deixou seu matiz
Na robusta produção.
Os três com certeza não
São sagrados nem profanos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

Três corcéis soltos sem rédea
Nos campos férteis das artes,
Três cetros, três estandartes
Três estros além da média
Nelson deu alma à comédia,
Luiz criou o baião,
Jorge leu com emoção
Os sentimentos baianos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

Três bússolas, três timoneiros
Três videntes, três estetas
Três sonhadores poetas
Três autênticos brasileiros
Três mágicos, três feiticeiros
Três luzes na amplidão
Três sementes de emoção
Lançadas em solos planos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

Três cascatas, três rochedos
Três rapsodos etéreos
Três enigmas, três mistérios
Três boêmios, três aedos
Três decifráveis segredos
Três bombas numa explosão
Três invernos no sertão
Três destinos, três ciganos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

Três plantadores de sonhos
Três jardineiros, três lagos
Três caminheiros, três magos
Três vencedores medonhos
Três estafetas risonhos
Três aves de arribação
Três faróis na escuridão
Três naus em três oceanos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

Três geniais nordestinos
Três astros incandescentes
Três jazidas, três torrentes
Três lentes, três paladinos
Três artistas genuínos
Três monstros da criação
Três mundos de inspiração
Três deuses, três soberanos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

Jorge Amado, absoluto
Em seu ideal político;
Nelson Rodrigues, um crítico
Controverso e muito astuto;
Luiz Gonzaga, um matuto
De apurada aptidão;
Os três legaram à nação
Feitos quase sobre-humanos.
Três gênios fazem cem anos
Nelson, Jorge e Gonzagão.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

“PARA TODOS” OS NORDESTINOS - Cristina Couto.


Embora não pareça, ou nos passou despercebido, o compositor Chico Buarque de Hollanda cantou e recantou o nordeste brasileiro. Seu primeiro contato com nossa região foi quando musicou a peça “Morte e Vida Severina” de João Cabral de Melo Neto, território, até então, completamente desconhecido por ele, fato que levou o artista, em começo de carreira, a pesquisar o lugar.
Defensor das causas sociais, grande observador das cidades, um verdadeiro flâuner, Chico acompanhou de perto o desenvolvimento acelerado dos grandes centros, exatamente, na época do “milagre econômico brasileiro”.  Em São Paulo onde ele acompanhou a demolição da antiga capital do café e a substituição imediata de novas e modernas construções, viu o operário “Pedro Pedreiro” esperar e pegar o trem no subúrbio paulistano com destino ao mundo do trabalho pesado, e subir a construção como se fosse máquina, erguer paredes mágicas, sentar para descansar como se fosse um príncipe, comer feijão com arroz como se fosse o máximo, e tropeçar no céu como se fosse um bêbado, embriagado de trabalho, de cimento e de lágrimas, tropeçar no céu dos seus sonhos nunca realizados, porque nunca chegou a ser nada, o máximo que conseguiu ser foi sempre o “como se fosse” e nunca foi, e acaba morrendo como um estorvo, atrapalhando o tráfego, o público e o sábado.  
Ao pegar carona na “Caravana Holiday de Bye, Bye Brazil,” Chico Buarque se manda de trenó pra Rua do Sol Maceió, pega uma doença em Ilhéus, e com as bênçãos do seu Orixá acha bauxita no Ceará. E segue por um nordeste mudado, urbanizado e televisionado dos meados da década de 1970. Depois imagina ser uma violeira nordestina que sonhou desde menina no Rio ir morar, passa por Sergipe, Pernambuco, Paulo Afonso, Fernando de Noronha e o Sertão do Ceará, mesmo enfrentando muita tormenta chega enfim em Ipanema onde finca residência, sem vontade de voltar.
Em “Para Todos” surge um Chico neto de pernambucano e trineto de baiano que exalta o pernambucano Luiz Gonzaga, os baianos Dorival Caymmi, Gil, Caetano, Bethania, Gal e João Gilberto, e o paraibano Jackson do Pandeiro, revelando a miscigenação brasileira dentro do próprio país, não importando a naturalidade, mas sim, a genialidade, pois, o artista pode ser paulista, pernambucano, cearense ou baiano, na verdade, ele é um cidadão do mundo que “vai na estrada há muitos anos é artista brasileiro”.

Fortaleza, 08 de junho de 2012.
Cristina Couto.



quinta-feira, 20 de setembro de 2012

O SERTÃO NORDESTINO CANTA E PROTESTA NA VOZ DO REI DO BAIÃO



Luiz Lua Gonzaga, o Gonzagão, ícone da música nordestina, sanfoneiro danado de bom, tornou-se personalidade de estilo inconfundível na história da Música Popular Brasileira em razão do talento que o fez único como músico, cantor e compositor. O ano de 2012 será se comemorações pela passagem do centenário de nascimento do inexcedível pernambucano quase cearense. Nordeste VinteUm começa o ano prestando homenagem ao Rei do Baião, a primeira de uma série.

Por Barros Alves

Luiz Gonzaga do Nascimento deu o ar graça a este mundo no dia 13 de dezembro de 1912, na Fazenda Caiçara, de propriedade do Coronel Manuel Aires, localizada na região serrana do Araripe, no município de Exu, no Estado de Pernambucano. Foi o segundo dos nove filhos nascidos da união entre o sanfoneiro Januário José dos Santos e Dona Ana Batista, apelidada Santana. O pai, além de ser conhecido tocador de sanfona na região, consertava instrumentos e era agricultor agregado na citada fazenda. Conta-se que o nome do futuro maioral da sanfona tem o significado místico de tríplice homenagem: a Santa Luzia, cujo dia 13 é a ela dedicado pelo hagiológio católico; a São Luiz de Gonzaga e o sobrenome foi-lhe dado por conta do fato de que dezembro é o mês do nascimento de  Jesus.
Na Exu onde nasceu Luiz Gonzaga faltava escolas e sobrava violência entre Sampaios e Alencares, clãs que disputavam o poder no município do semiárido pernambucano. O menino, inteligente e atilado, não se conformou em apenas observar o pai consertar instrumentos. Logo “agregou-se” como ajudante do “Sinhô” Aires, um rábula pertencente à família dos proprietários. Com ele aprendeu a ler e escrever. Com o pai aprendeu a tocar a “oito baixos” e passou a ganhar uns trocados tocando nas festas da redondeza. Namorador, logo se engraçou de uma cabrocha filha de um remediado da região. O pai de Nazarena – este o nome da pretensa namorada – não aprovou a ousadia do rapaz e Gonzaga resolveu tomar satisfações. Para criar coragem, bebeu uns tragos de cachaça. Perdeu a garota e ganhou uma surra da mãe, Dona Santana. A sova mudou o curso da vida de Gonzaga que irritado com a situação decidiu dar adeus a Exu.

Do Exército para a fama no cenário musical

Prestou serviço militar no Exército, em Fortaleza e em Minas Gerais, onde foi tocador de bumbo. Ganhou uns bons trocados e comprou uma sanfona Honner, de 80 baixos, coisa de profissional. Ao dar baixa no Exército, rumou para Recife, capital do seu Estado, cidade que ele não conhecia. E não foi naquele momento que conheceu, porque o navio em que viajava Gonzaga fez pausa no Rio de Janeiro. O sanfoneiro foi traído pelo espírito boêmio. Foi conhecer o Mangue, bairro onde se concentrava a boemia da cidade. Ali conheceu o baiano Xavier Pinheiro, músico, casado com a portuguesa Leopoldina, a Dina, o quais farejaram o talento do moço nordestino e o levaram para morar com eles no Morro de São Carlos. Ali começou a carreira do futuro Rei do Baião, com a ajuda do melhor acordeonista da época, o mineiro Antenógenes Silva. Este ministrava aulas de acordeom numa escola aberta instalada no Bairro do Flamengo.
A estas alturas Gonzaga já se apresentava com uma Scandali de 120 baixos e se apresentava nas rádios da Cidade Maravilhosa, centro propulsor da cultura musical brasileira. O repertório era vário: valsas, choros, foxtrotes. Foi um grupo de estudantes do Ceará, entre eles Armando Falcão, que se tornaria Ministro da Justiça, quem estimulou Gonzaga a usar o acordeom para tocar músicas de estilo sertanejo. Inicialmente ele estranhou a mudança, porque entendia que a sanfona era um instrumento citadino, inadequado para o tipo de música que se fazia no Nordeste. Para Gonzaga, então, “lá no sertão é só fole e o fole está para o acordeom como o pífano para a flauta”. Mas, finalmente, capitulou e compôs o xamego instrumental “Vira e Mexe”, ganhador do prêmio principal em programa de calouros comandado pelo compositor Ary Barroso. A sorte começou a sorrir para o matuto do Exu. Foi convidado a trabalhar no programa A Hora Sertaneja, sob a liderança de Alfredo Ricardo do Nascimento, o Zé do Norte, paraibano que foi pioneiro na divulgação da cultura nordestina. O programa ia ao ar na Rádio Transmissora, a atual Rádio Globo. Posteriormente trabalhou com a dupla Genésio Arruda e Januário França, que o levaram para gravação em cena cômica de “A Viagem de Genésio”, por terem visto em Gonzaga um sanfoneiro versátil e capaz.
Gonzaga ganhava fama e gravava muitas músicas. A Rádio era o grande canal de divulgação dos artistas que se apresentavam em meados do século passado. Ele teve passagens pelas famosas Rádios Mayrink Veiga e Tamoio, contratado pelo compositor pernambucano Fernando Lobo. Até aí Gonzaga somente puxava o fole. Apareceu-lhe, então, o primeiro parceiro letrista, o fluminense Miguel Lima. Outros surgiram e Gonzaga teve que arrostar obstáculos para gravar como cantor. E, como lembra o historiador da MPB, Tárik de Souza, “Para finalmente estrear como cantor, Gonzaga teve de ameaçar o diretor da gravadora onde era contratado, Vitorio Lattari, da RCA”. Disse que se seu desejo não fosse aceito iria mudar-se para a concorrente Odeon e usaria o nome do pai, Januário, caso continuasse a ser vetado. Então lhe foi aberta a porta e ele gravou a mazurca “Dança Mariquinha”, escrita em parceria com Miguel Lima, que obteve algum sucesso. Mas, os grandes êxitos estavam para vir com “Penerô Xerém” e “Cortando Pano”. Aí estava surgindo de fato o Rei do Baião.

Parceria com Humberto Teixeira produziu grandes sucessos

Como observa Vasco Mariz foi por volta de 1946 que “apareceu no cenário da música popular brasileira o avassalador baião, trazido do Norte por Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira. O êxito seria estrondoso pela valiosa contribuição rítmica que o baião apresentava, justamente em uma época na qual os ritmos nacionais se amoleciam pela interpretação defeituosa de nossos cantores famosos e a crescente influência estrangeira”. Com efeito, a associação de Luiz Gonzaga com Humberto Teixeira foi profícua na produção de grandes musicais que se popularizaram de modo extraordinário. Mariz insiste em que a popularidade de Gonzagão foi sobretudo resultado dessa parceria com o advogado cearense de Iguatu, compositor de belíssimas letras da música nordestina. “O baião virou maré avassaladora no Brasil: Paraíba, Juazeiro, Baião de dois, Que nem jiló divulgaram o ritmo nordestino, que atravessaria fronteiras com caravanas musicais”, observa o historiador, lembrando que a parceria com Humberto Teixeira terminou em 1950, mas logo apareceram outros importantes nomes para dar continuidade ao trabalho de produção musical de Luiz Gonzaga, entre os quais destaca o médico pernambucano Zé Dantas, com quem Gonzaga compôs A Dança da Moda, Xote das Meninas, Vozes da Seca etc.
Gonzaga teve muitos parceiros. Ele trabalhou sua história musical com 275 parceiros letristas e compositores em 833 faixas de discos, sendo 127 de 78 RPM, 114 regravações, 99 LPs. Os parceiros com os quais mais produziu foram João Silva (187 canções), Zé Dantas (152), Humberto Teixeira (133) e Onildo Almeida (120). Todavia, como lembra a Professora Elba Braga Ramalho, “Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira produziram até o final dos anos 50, parte do repertório mais representativo da música nordestina em disco; no entanto, Zé Dantas também contribuiu em parte para a construção desse patrimônio”.

O declínio, mas não o fim

 Em fins da década dos 50 do século passado, em razão da grande penetração do mercado norte-americano no país, especialmente com a popularização do rock-and-roll, começou um certo declínio da popularidade do Rei do Baião e, consequentemente da música nordestina. Segundo a professora Elba Braga Ramalho, o amigo e parceiro Humberto Teixeira, então deputado federal, “ainda tentou explorar a fama do baião, introduzindo as Caravanas de Cultura,que exportaram o gênero para a Europa e os Estados Unidos”. Mas o esforço não foi suficiente, porque além do rock “os interesses da classe média estavam voltados para a bossa nova”. Mas, se no geral havia declínio da popularidade do baião, o mesmo não se podia dizer da fama do Rei do Baião, que continuava a criar estratégias de audiência voltando-se pra as populações nordestinas que migravam continuamente para os Estados do sul, do sudeste e do centro-oeste, especialmente para o Planalto Central, em razão da construção. Gonzaga também empreendia turnês por todo o país e se gabava de conhecer todas as cidades brasileiras com mais de 4 mil habitantes. O sanfoneiro andarilho não deixou por menos e registrou as andanças em Vida de Viajante, que compôs com Hervê Clodovil, regravou com Gonzaguinha, posteriormente com Fagner, e continua fazendo sucesso.
Enfim, em todos os aspectos, musicalmente Luiz Gonzaga não morreu apesar de ter falecido há 23 anos. Continua no coração do povo brasileiro e, em especial, das populações nordestinas espalhadas por este Brasil afora. De fato, como bem expressa-se a professora Elba Braga Ramalho, “Além do mais, Gonzaga perpetuou sua produção através de diferentes gerações de músicos e compositores. Ele desencadeou o processo de afirmação da música popular nordestina, através de seus seguidores, aqueles simples reprodutores de seu estilo e de seu conjunto típico, anônimos profissionais que deram vida a forrós nas mais distantes cidadezinhas, aqueles que têm produzido um trabalho mais elaborado, conservando um sotaque musical do Nordeste, a exemplo de Dominguinhos.” O Rei do Baião continua sua viagem de ritmos e sons nordestinos na criatividade  musical dos que se consideram seus legítimos sucessores e, sobretudo, na imaginação de quantos se deliciam com o som de sua sanfona choradeira e do seu vozeirão de cabra da peste.


::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::::


O Nordeste Saudoso Comemora o Centenário de Luiz Gonzaga - Cristina Couto



Quando o sol calcinou a terra e asa branca bateu asas e voou, Luiz Gonzaga, filho de Januário e Santana, enfrentou a légua tirana em cima de um pau de arara, levando dentro do seu matulão um triângulo, um gonguê, um zabumba e, em sua memória, a rica cultura nordestina.
Sentiu-se um peixe e fez uma grande viagem imaginária pelo Riacho do Navio, correu pro Pajeú e acabou sendo despejado no São Francisco que desembocou no meio do mar. E num desejo de regresso aos rios nordestinos fez o caminho inverso, nadou contra as águas e nesse grande desafio saiu, outra vez, direitinho no Riacho do Navio para desfrutar dos costumes simples e prazerosos do sertão.
 Para rever o seu brejinho, fazer umas caçadas, ver as pegas de boi e andar na vaquejada, mais uma vez dormiu ao som do chocalho e acordou com a passarada e fez questão de ficar longe da notícia, da civilização.
O Luiz apaixonado pela faceira Karolina com “K” que dançou numa Sala de Reboco, viu quando apagaram o candeeiro e derramaram o gás, e mostrou ao Brasil como se dança o Baião, o Xaxado e o Forró, mexendo o corpo e alma, fazendo velho ficar moço. Não era de briga e nem de confusão, mesmo assim, acabou um samba, no Forró de Mané Vito.
Luiz Gonzaga cantou os mitos e as superstições nordestinas, nossas experiências com o tempo e suas modificações climáticas. Ao ouvir o canto da Ema chamou sua morena para acabar com seu medo, pois a Ema traz no meio do seu canto um bocado de azar, principalmente se ela canta no tronco da Jurema, ao ouvir o Vim-vim cantar sabia que alguém estava pra chegar, como chegou o amor no coração das meninas num xote feito para elas.
Em meados de 1950, foi chofer de táxi e descreve um Rio de Janeiro urbanizado, modernizado e acolhedor, utilizando o mapa cartográfico da sua mente, faz o trajeto de Mangaratiba ao Leblon, achou pouco e anos depois, em sonho, atravessou o mundo e foi parar em Moscou para dançar um Pagode Russo, pois no Rio tudo estava mudado na noite de São João.
O que seria do Nordeste se não tivesse Luiz, que não respeitou Januário, que dividiu a vida e o palco com seu filho Gonzaguinha, que cantou o Juazeiro, que se tornou o Rei do Baião e ficou na memória do seu povo.
Em 2012, ano do centenário de Gonzagão, seu forró não é mais o mesmo. O ritmo que se tornou por ele conhecido, em nada se parece com sua forma original. Nem o forró, nem o baião e nem as noites de São João no seu saudoso Sertão. Tudo está modificado, porque tudo muda sobre a terra.

Obrigada, Luiz! Eterno Rei do Baião e Cantador do Sertão.

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Zé Rainha: O Rei do Carnaval - Dimas Macedo





             O menino José Ferreira da Silva, nascido no sítio Tatu, em Lavras da Mangabeira-CE, aos 6 de junho de 1933, talvez nunca tenha pensado que um dia participaria de um cortejo, que desfila, solenemente, em memória de nossos ancestrais. Menos ainda que ele seria a Rainha e o centro das atenções de uma procissão carnavalesca, como aconteceu, em março de 2011, na Avenida Domingos Olímpio, em pleno coração de Fortaleza.
            Filho de Júlio José da Silva e de Josefa Arruda da Silva, José perdeu o sobrenome paterno porque foi registrado por uma tia “que não gostava muito dessa história de Silva”. O casal tinha cinco filhos, entre eles, Francisco e Miguel. O pai era agricultor e trabalhava nas terras do coronel Amâncio, no sítio Tatu, mas a família residia na cidade de Lavras.
            José Ferreira da Silva descende de uma dinastia de negros criados por Dona Fideralina Augusto, para regalo da sua condição. Hoje cultuado como figura de destaque do carnaval cearense, afirma, ele próprio, que jamais estudou: “quando me entendi na vida, já foi para trabalhar”.
              Acrescenta que a família veio para a capital cearense fugindo de uma seca, quando ele tinha entre dez e onze anos, aproximadamente. A viagem foi de trem e todos fixaram residência no distrito de Otávio Bonfim, próximo à Estação Ferroviária.
              O pai trabalhou como vigia numa oficina da Rua São Paulo, até morrer, perto dos setenta anos. A mãe “lavava roupa e cozinhava nas casas dos ricos, quando havia banquete”. Fazia chapéus de palha, ofício que aprendeu quando era jovem, em Lavras da Mangabeira. Quando enviuvou, passou a morar na casa de uma irmã, em Fortaleza, e faleceu em 1993.
              José Ferreira Arruda, com o nome civil já modificado, não teve muita escolha. Deu duro para sobreviver na cidade grande: “trabalhei como jardineiro, copeiro, babá, cozinheiro; tudo eu fiz na vida. Não tinha como ser diferente”, diz resignado.
              Morava sempre nos empregos, quase todos no centro. Viveu numa Fortaleza muito pacata, no apogeu da era do cinema, com famílias que saíam aos domingos para ver as vitrines. Uma cidade cheia de hipocrisia, mas recheada, é certo, de muita irreverência, e menos violenta do que nos dias de hoje.
              Um dos seus empregos mais duradouros, e que gosta de relembrar, foi o de “arrumador do Hotel Fortaleza”, de dona Olívia Cardoso, na Rua Senador Pompeu, convivência que lhe deu um jeito perverso e amoroso de ser, típico de muitos transformistas e de muitas figuras emblemáticas da nossa cultura popular.
               Mas, desde a juventude, José Ferreira Arruda achava os maracatus muito bonitos. Na década de 1930, mais precisamente a partir de 1936, Raimundo Feitosa deu a sua cartada, com a criação do maracatu Az de Ouro, que José Ferreira Arruda tanto admirou. Nos anos 1950, o maracatu Az de Espadas era uma apoteose. Levava muita gente ao corso. Depois vieram o Leão Coroado, o Rancho Alegre, o Rancho de Iracema, o Rei de Paus e a Nação Uirapuru.
               Até final da década de 1960, os maracatus firmaram-se como expressões culturais da nossa cultura carnavalesca.  Chegavam a ter arremedos de carros alegóricos, com navios negreiros, casas de farinha, engenhos. Mas sem as exigências dos regulamentos e das comissões julgadoras.
           Em 1963, José Ferreira Arruda não resistiu: entrou para o maracatu Rei de Paus, onde permaneceu durante vinte anos. Começou como Princesa. Em 1964, enquanto a cena política brasileira fervia, o radialista José Lisboa promoveu uma eleição no programa Fim-de-Semana na Taba, da Rádio Iracema, para escolher a nova Rainha desse importante bloco cearense. José Ferreira saiu, então, vitorioso, e mudou o nome para Zé Rainha.
           A dimensão carnavalesca à qual Zé Rainha pertence enfatiza a corte: príncipes e princesas, o Rei e a Rainha. O rosto tingido de preto não menospreza uma etnia, pois Zé Rainha, que descende de negros do Tatu, uma conhecida senzala cearense, sabe que pertence à mestiçagem cabocla, e que a Madrinha Fidera está na origem de tudo.
          O seu rosto é anualmente pintado de fuligem de lamparina, abafada numa lata de querosene: “depois se raspa o pó que vai ser misturado à vaselina sem cheiro”, ensina o Mestre Zé Rainha. É como se pintam os rostos no Teatro Nô ou no Kabuki, acrescenta o autor deste artigo.
          A pintura não provoca alergia, pelo menos em Zé Rainha. A sua aplicação constitui um ritual, depois de vestir a blusa e de colocar a peruca. Diante do espelho, o batom acentua a linha dos lábios e a mistura é aplicada com cuidado, como se compusesse uma máscara africana, daquelas que inspiraram Picasso para a invenção do cubismo.
          Por isso, Zé Rainha, nessas ocasiões, sempre se acha vestido com altivez. Durante muito tempo foi assim. Misógino, o maracatu recrutava homens, como no teatro elisabetano. Muitos, no começo, eram estivadores que faziam o papel de “negronas”, como diz Zé Rainha. Depois entraram as mulheres, como a Bida, do Leão Coroado, que também era negra.
          Percebendo que o maracatu de Pernambuco não se pinta, e se veste de forma menos pomposa e elegante, Zé Rainha decidiu inovar, introduzindo o luxo no cortejo cearense, sobressaindo-se, na história do carnaval, exatamente por essa inovação. Antes as roupas eram brancas, com detalhes pretos ou vermelhos, conforme mostram as fotos do passado.
           Zé Rainha, no entanto, fez questão de realçar o brilho, exigindo brocados, lantejoulas, miçangas e outros adereços requintados, porém sempre fiel às suas origens sociais. Conhece todos os maracatus pernambucanos que fizeram apresentações em Fortaleza, e deita regras: “o daqui tem mais respeito, aquele ritmo mais lento, as pessoas mais bem vestidas”.
         Não reclama a falta de apoio oficial, pois é daqueles que vestem a camisa da sua condição de brincante, para o que der e vier. Em 1962, brincou no cordão Garotas do Sputinik - “coisas da juventude”- e desfilou na escola de samba Império Ideal, num enredo em que participava um maracatu, sendo ele, como não poderia deixar de ser, a Rainha.
            Católico, devoto de Nossa Senhora da Conceição e de São José, de quem tem “um vulto”, Zé Rainha é categórico ao negar a relação dos maracatus com a umbanda. Enfático, até demais, como se fosse depreciativa essa forma de aproximação: “o povo não tem essa besteira, não tem essa ligação”, diz, contendo a irritação.
            Fala de um pai-de-santo que muito admira (Padrinho Zé Alberto), que adorava maracatus e saía de príncipe, todos os anos, até morrer. Outro, segundo ele, que “cantou e subiu”, foi Luiz de Xangô. Lembra, por igual, o nome de um brincante famoso: Zé Tatá, que marcou época em Fortaleza, no tempo dos bordéis, uma espécie de Madame Satã, em versão cearense, e que sempre saía de Princesa.
          Não é à toa que José Ferreira Arruda é Zé Rainha. Só que ele se recusa a viver a personagem apenas durante os dias da festa. Ele é Zé Rainha todos os dias do ano. Assim seu nome está escrito em seu cartão de visitas desde a década de 1980, quando tinha uma casa de cômodos, na Rua 24 de maio, nº 1094.
           Hoje, ele mora em um labirinto de pequenos compartimentos, no bairro de Jacarecanga. Uma espécie de cortiço, protegido dos olhares de quem passa. Condição de vida muito difícil para quem, aos setenta anos, não conta com uma aposentadoria: “por causa do protocolo, que é demais. Prometem para janeiro do ano que vem”, diz com resignação e sem muita esperança.
           E enquanto o tempo passa, o fogoso Zé Rainha continua bailando, como se estivesse no ritmo de uma velha cantiga popular. Faz biscates, conta com a ajuda dos amigos e do pessoal do maracatu Az de Ouro. Mas não faz alarde da miséria. É altivo o bastante para não passar por vítima. Quando soube que a Rainha Mãe, Elizabeth II estava no trono há 50 anos, disse que teriam que providenciar um carrinho para ele desfilar, pois, quem é Rainha, nunca deixa de estar no topo.
           Diz que a rainha precisa ter porte. Ela não canta as loas, mas sorri, acena para o público e se embala nas ancas de arame da saia rodada. Descarta, contudo, as rainhas afetadas, porque Rainha, para ele, se impõe sem maiores esforços.
          Chegou a usar tamancos, mas se equilibrava mal, pois, afinal de contas, a roupa pesa em torno de quarenta quilos. Hoje usa tênis e relembra o auge da Ispáia Brasa, quando o modelo de escola de samba carioca estava sendo exportado para todo o Brasil, por meio da televisão, nos anos dourados da década de 1970.
           Zé Rainha não para. Sempre se prepara para o próximo carnaval, a despeito das crises, mergulhando, de corpo e de espírito, nessa maravilhosa aventura de viver a sua condição. Sabe que já chegou ao posto de Rei do Carnaval. E que Lavras da Mangabeira não produziu ninguém que a ele se possa comparar, pelo menos no plano da cultura. É o afrodescendente que melhor representa o sertão do Ceará.

                                                                                                                                                                                                                                                            



SERTANIDADE - Barros Alves



(Uma homenagem a minha terra natal, Mombaça)

Basta-me o cheiro sertanejo da caatinga
quando  o sol se insinua assim, devasso,
e vem roubar olhares das meninas
que nos quintais pirateiam sonho e afagos.

Basta-me o pôr-do-sol, vermelhidão
de lábios carmesins em oferenda,
poema aceso, virgem flor agreste
com cheiro das meninas  do sertão.

Basta-me o anoitecer de plenilúnio
e o olhar de Deus espreitando na amplidão,
e as conversas matutas  no terreiro
e os amores a medo sob estrelas.

Bastam-me madrugadas e cantares
e a musicalidade violeira.
Um verso, uma cachaça, um olhar furtivo,
Um beijo na morena mais brejeira.


Das Mil e Uma Noites para o folclore nordestino


Cavalo Marinho, animal encantado que vive no mar ou nos rios, é também nome que se dá a um dos mais populares folguedos do folclore brasileiro brincado, sobretudo, na Zona da Mata pernambucana e no agreste da Paraíba. Já foi importante no Rio Grande do Norte e no Ceará, mas atualmente pouco se ouve falar sobre ele. Assemelha-se ao bumba-meu-boi e se inscreve no ciclo de festejos natalinos. É festa de origem oriental, com registro nas Mil e Uma Noite (primeira viagem de Simbad, o marujo). Entre nós tornou-se folguedo em homenagem aos reis magos. Dele há no Brasil notícias fantasiosas e em contos tradicionais desde o século XIX.

A influência oriental para a realização desse folguedo não se dá apenas no Brasil, mas em vários países da Europa e alguns pesquisadores asseguram que o cavalo-marinho seria uma versão brasileira da commedia dell’arte italiana. Com ligeiras modificações e adaptações de região para região, consiste em um auto humorístico-jocoso, com sessenta e três atos e cerca de setenta personagens que representam seres humanos ou fantásticos. O conjunto artístico do folguedo envolve as expressões típicas do teatro, juntamente com a dança, a música e a poesia (loas). Nessa encenação que dura quase uma noite inteira, os músicos tocam sentados um instrumental formado por pandeiro, rabeca, ganzá e reco-reco.

Lopes Gama, em texto de 1840, citado por Câmara Cascudo, já informa sobre o sincretismo entre a festejo herdado do folclore oriental e o bumba-meu-boi: “o sujeito do cavalo marinho é o senhor do boi, da burrinha, da caipora e do Mateus”, estes, personagens típicos do festejo nacional. De igual modo, Sílvio Romero, emContos Populares do Brasil, registra o cavalo-marinho já integrado no bumba-meu-boi e como personagem central da trama lúdica: “Cavalo-marinho, por tua mercê/ mande vir o Boi/ para o povo vê”. Também Gustavo Barroso dá ênfase à presença da representação do cavalo-marinho, o capitão: “É um mestiço alto de chapéu armado com plumas, casaco de enfeites dourados, montado num cavalo de pau, com saiote comprido que envolve as pernas do indivíduo. Sobre a garupa traz uma boneca de pano, a Zebelinha, sua filha. Seguem-no, ladeando, dois meninotes de roupas berrantes: Galante e Arrelequinho”.

A versão do folguedo nos dias atuais, nos lugares onde se dão ao prazer da folclórica encenação, o Capitão Marinho lidera a cena ao oferecer um baile aos Reis Magos. Para isto, contrata dois negros, Mateus e Bastião, personagens cômicos, para tomarem conta do terreiro. Os dois negros são amigos e dividem a mesma mulher, Catirina. No terreiro, os negros passam a se dizer donos do lugar. Então o capitão chama o Guarda da Gurita. Quando a situação é normalizada, surge o Empata Samba interrompendo a festa. Outros personagens de destaque são Ambrósio, Valentão, Matuto da Goma, Mané Joaquim, Véia do Bambu. Há também o Caboclo de Arubá, que é uma entidade sobrenatural que canta todas as linhas de Jurema. Quando entra Mané do Baile, inicia-se o baile, ponto alto da noite. As danças são diversas como o Maguião, o São Gonçalo e o Coco. O boi surge pela manhã e é dividido entre os participantes.

Um dos nomes que deram visibilidade ao Cavalo-marinho em Pernambuco e se alteia entre os mais importantes na história recente desse folguedo é o Mestre Salustiano, responsável pela introdução do cavalo-marinho no Recife. Ele recebeu o título de mestre depois de representar quase todos os personagens da brincadeira e hoje toca sua rabeca no "banco", nome que se dá ao local onde os instrumentistas ficam sentados durante toda a festa. Nas noites de Natal convoca os maiores mestres da zona da mata - Gasosa e Grimário, entre outros - para brincar no centro cultural Ilumiara Zumbi, construído por ele na cidade de Tabajara, próximo a Olinda.

Em Pernambuco, os grupos de cavalo-marinho estão concentrados numa região pequena, formada basicamente pelas cidades de Condado, Aliança, Ferreiros, Camutanga, Itambé e Goiana. As apresentações ocorrem normalmente entre julho e janeiro, com maior intensidade no período que compreende o ciclo natalino, que vai de meados de dezembro até o 6 de janeiro, Dia de Reis.

Loas de Cavalo-marinho

Cavalo marinho,
quem te nomeou?
Foi um cantador
que por aqui passou.

Cavalo marinho,
com quem vais sonhar?
Com mil conchinhas
do fundo do mar.


Cavalo marinho,
quem te deu esse sinal?
Foi a mãe da mãe
da estrela do mar.

Cavalo marinho
dança com a princesa
Se apagar a luz,
a lua está acesa.

Cavalo marinho,
é hora da ceia
A dona da casa
que linda sereia!

Papagaio canta
Periquito chora
Cavalo marinho,
vamo-nos embora!

(Fonte: Batata cozida, mingau de cará, de Eloí Elisabete Bochecho, edição do  Ministério da Educação, Brasília, 2006)

Patativa: entre a norma culta e o verso popular Barros Alves



Há dez anos, no dia 8 de julho de 2002, falecia Antônio Gonçalves da Silva, o Patativa do Assaré, poeta-ícone da nordestinidade. Nascido nos cafundós da Serra de Santana, no Cariri cearense, foi privilegiado pelo bafejo das musas que dele fizeram poeta de alta lira. Homem de poucas letras, mas dotado de larga inspiração; nasceu, cresceu e viveu num microcosmo cheio de pobreza e miséria social, mas desse ambiente hostil soube tirar a seiva de uma poesia eivada de denúncias e protesto contra a incúria dos poderosos e a leniência de quantos têm a obrigação moral de debelar as injustiças sociais. Em extrema paradoxalidade metafórica, Patativa bebeu na aridez da terra seca dos sertões adustos a água que regou a fertilidade de seu verso rijo e forte; foi buscar na fragilidade das relações entre os pobres, caminheiros, romeiros e retirantes, a fortaleza de uma poesia que se fez duradoura, porque assentada na eternidade dos mais comezinhos sentimentos humanos.
Patativa foi exímio improvisador sem ser repentista nos moldes clássicos do cantador violeiro; não era cordelista nem poeta de bancada, muito menos um poeta de recorte clássico. Mas Patativa perambulou por todos esses caminhos da poesia brasileira. Construiu a literatura de cordel da melhor qualidade quando escreveu folhetos de encomenda como as “Glosas sobre o comunismo” (“Como popular versista/ provo com os versos meus/ ser inimigo de Deus/ o regime comunista/ ali não há quem assista/ um ato de adoração/ nesta lei de confusão/ criada pelo Demônio/ não existe matrimônio/ e é contra a religião!”); escreveu na forma nobre da poesia clássica, o soneto como o que transcrevemos, cujo conteúdo define severa crítica aos processos de cooptação eleitoral e logro político, ainda vigorantes entre nós nos dias hodiernos. Atente-se para o universo vocabular de um poeta que se dizia analfabeto, mas que na verdade, tinha dicção erudita:
O Peixe

Tendo por berço o lago cristalino,
Folga o peixe, a nadar todo inocente,
Medo ou receio do porvir não sente,
Pois vive incauto do fatal destino.
Se na ponta de um fio longo e fino
A isca avista, ferra-a inconsciente,
Ficando o pobre peixe de repente,
Preso ao anzol do pescador ladino.
O camponês, também, do nosso Estado,
Ante a campanha eleitoral, coitado!
Daquele peixe tem a mesma sorte.
Antes do pleito, festa, riso e gosto,
Depois do pleito, imposto e mais imposto.
Pobre matuto do sertão do Norte!
E vate de Assaré fez poesia matuta, em verso de linguajar caricato, posto que ele bem conhecia a norma culta da nossa língua, de modo que a dicção amatutada de muitas de suas poesias não era uma invenção, mas uma invencionice popularesca agradável aos ouvidos de uma maioria sem qualquer seletividade auditiva, desconhecedora da originalidade neste mister. Enfim, Patativa é um grande poeta porque transitou nesses gêneros poéticos com fidalguia e soube agradar a gregos e troianos, no terreno pantanoso da política, inclusive. Mas, aí é outra história que não cabe nem convém neste espaço.


2012/9/18 Cristina Maria Maria <cmacouto@yahoo.com.br>

terça-feira, 18 de setembro de 2012

DE IRACEMA, DE JOSÉ DE ALENCAR, A CHICO BUARQUE DE HOLANDA


DOS VERDES MARES BRAVIOS DE MINHA TERRA Natal AO SONHO AMERICANO

Cristina Couto


 
 
        Romanceada pelo escritor cearense José de Alencar, cantada pelo paulista Adoniran Barbosa, saudada pelo baiano Caetano Veloso, e simbolizada pelo carioca Chico Buarque de Holanda, mais uma vez o ícone cearense, Iracema, tornou-se musa desse compositor, a partir da canção “Iracema Voou”. E, assim fazendo, Chico Buarque repensa o mito das mulheres destinadas a nos representar numa mistura de imagens e sonhos diante da cultura brasileira. 
             Neste texto, a ideia é seguir esse conjunto de representações, que há quase dois séculos são como ponte entre a cultura brasileira e a velocidade da modernidade nos últimos tempos.
           Num fio enredado por escritores, compositores, poetas, sambistas e cancioneiros, duas figuras se destacam como começo e fim desse novelo cultural. No principio, está o escritor cearense José de Alencar que, em 1865, colocou a personagem Iracema no cenário cultural, sendo essa a primeira que deu rumo à conversa.
         Depois, em 1956, o sambista Adoniran Barbosa a eternizou numa canção conhecida e cantada nas rodas de samba de mesa e de fundo de quintal. Finalmente, um século depois da sua revelação, Iracema seria popularizada.
            Uma década se passou e Caetano Veloso a saudou fervorosamente em sua Tropicália, e desta vez ela aparece ao lado de outro ícone, o ícone geográfico da revolução de costumes do tempo, representado por Ipanema, fundidos neste belo verso: “Viva Iracema, viva Ipanema”.
             E para finalizar o grande novelo cultural que as Iracemas acabaram se enroscando, a figura de Chico Buarque tratou de ficar na linha de ponta atual desse extenso processo.
          A Iracema que voltou nos versos musicais de Chico é uma mulher moderna da era da globalização, do consumo e da marca impressa em tudo e em toda parte, que ver na força do trabalho a oportunidade para sua ascensão profissional e sua liberdade financeira.
          Desta vez, ela não é mais aquela mulher passiva: ela agora vai ao encontro da modernidade, representada na música pela sua migração, fato comum nos habitantes da periferia em direção aos grandes centros, sempre em busca de uma ilusão, de um futuro melhor e mais promissor.
           Aquela Iracema que nascera no Ceará, a partir das linhas escritas por José de Alencar, e que andava toda a mata cearense a pé, um século mais tarde viaja para São Paulo e perde-se tragicamente no trânsito da grande metrópole.
          Uma década depois, não mais como as jandaias que habitavam a mata do seu Ceará, mas desta vez como a lendária fênix, ela ressurge nas correntes artísticas de vanguarda na voz de Caetano Veloso, em pleno Coração do Brasil. Nos versos de Chico Buarque, a personagem indígena de José de Alencar é modernizada ao máximo: “Iracema Voou” para a mais nítida representação do capitalismo: a América.
      Aquela antiga Iracema passiva e discreta não mais está no Brasil a espera de dias melhores. Agora a novíssima Iracema conduz afoita seu próprio destino, deixando para trás o canto da jandaia, o trânsito de São Paulo e os céus do Brasil. Porque, afinal, tudo passa mesmo sobre a terra.

 

A Casa de José Cidrão - Dimas Macedo




                    A Casa de Jose Cidrão: eis um conto que me persegue há bastante tempo. Desde quando passei a conviver com Lúcia e a minha vida começou a girar em nova rotação. Depois vieram as luzes e os prazeres, o sol nascendo diferente em cada manhã e o tempo das sementes se transformando em tempos de colheita.
                     Os sinos resistiram na imaginação, foram alimentados pela cozinha de Dona Adi Cidrão, e pelo partido de gansos a desfilar na lagoa de Marrecas, eternizando as lembranças que nos levam serenos pela vida.
                        As torres da Igrejinha de Jesus, Maria e José, as águas do Puiu onde passei a lavar a minha alma, o mugido das reses no cercado e as cadeiras na calçada do seu Zé a contemplar as nuvens mais belas do planeta.
                   José Castelo Cidrão (Dedé) e Maria José Carvalho Cidrão (Adi) fundaram a República de Marrecas, e há um século aí começaram a reinar. Os filhos do casal cresceram respirando o mormaço da terra, contemplando as flores da buganvília e do mata-pasto e ouvindo o coaxar dos sapos.
               Seu Zé trocou a sua condição de vaqueiro pela profissão de agrimensor e de perito, pendurando o passado nos alforjes depois que o legendário Wicca o levou para demarcar as suas terras, tornando-se seu Zé, com o tempo, o maior viajante do sertão.
                  E depois vieram os ventos que o transformaram em chefe de polícia, e líder do partido do governo quando o distrito de Marrecas conquistou a sua independência, e ali foi erguido um monumento à tradição da família Carcará.
                  E de forma que a Casa de seu Zé se tornou a mais acolhedora de todas as casas do Nordeste. É arejada e rodeada de alpendres onde se cultiva a boa convivência. É cravejada de armadores que dançam todas as cirandas e solfejos do sertão.
                Na casa do seu Zé Cidrão, as Ladainhas e as Novenas de Natal e os Ofícios da Sagrada Família são tecidos em louvor de Dona Adi Cidrão e se bastam ao coração de todos os ouvintes.
               Uma santa Dona Adi Cidrão, a filha de seu Né Parmênio, porque santificado o seu silêncio, porque glorificado o seu nome por todos os membros da família. Em Dona Adi está a raiz do seu Zé, e nos filhos do casal estão os ramos de uma árvore que resiste ao furor das intempéries.
                Seu Zé Cidrão das Marrecas, o filho de Laura e de Francisco Cidrão, o imperador das terras do sem fim, o agrimensor e o perito, o topógrafo e o cidadão que representa melhor os Carcarás.
             Dito Por Dito, Légua Por Légua, No Sertão dos Inhamuns: eis a engenharia maior da Casa do seu Zé, o fio condutor da sua narrativa e a música que se ouve da forma mais sentida em todo o Ceará.